Pelo direito de ser amador
Uma febre recente que se espalha por orkuts, twitters, blogs e fóruns internet afora é a de falar mal do quadrinho nacional. Até sites especializados começam a destilar um pouco sobre o assunto. É até compreensível. Ultimamente tem havido uma avalanche de publicações nacionais e de sites com seus criadores pedindo por um pouco de atenção. Nada mais nornal que uma reação a isso.
Malham mesmo. Com fervor e sem pudor. Então é o caso de ir às bancas para avaliar se as HQs são tão ruins quanto comentadas.
Epa.
Não existe NENHUMA publicação brasileira (que não seja humor ou infantil) em bancas. Então, peraí… o que estão tão fervorosamente criticando ?
Fanzines. Ou os atualmente ditos ‘independentes’. Publicações sem âmbitos profissionais e comerciais. Sério. A que ponto chegamos.
Suas justificativas são semelhantes (assim como os insultos gratuitos): o de melhorar o cenário nacional. Que cenário? Sinceramente me pergunto como podem chegar a tal conclusão detonando o trabalho alheio da forma que o fazem. Obviamente é somente para chamar atenção “me leiam, eu existo”. Outro ponto engraçado que merece registro é que estes ‘criticos’ nunca falam das obras publicadas no Brasil – os livros de quadrinhos. Provavelmente por medo de ir contra peixe grande, as editoras (normalmente quem critica também quer publicar e não corre o risco de se queimar).
Escrevem de tudo: que seus autores são responsáveis pela inexistência de mercado, que não aceitam críticas, que seus trabalhos são porcos, não buscam aperfeiçoamento, que falta originalidade, que são covardes… ou seja, tudo o que se esperar de um profissional.
Esclareço: um profissional é aquele que possui ofício rotineiro e é remunerado para isso. Já o amador, faz… por paixão. Por gostar tanto de HQ que, nas horas vagas (sim, porque ele não ganha um centavo com isso – ele tem outro emprego para se sustentar), produz seu desenhinho, seus quadrinhos. É um passatempo. Um hobby. Faz quando pode, do melhor jeito que dá.
Mas até disso reclamam: que hoje todo mundo faz quadrinhos no Brasil por hobby. Novamente, nada mais esperado: ninguém ganha porcaria nenhuma fazendo HQ por estas bandas – esperar o que? Uma enxurrada de trabalhos com qualidade ímpar? Eu fico tão puto com tamanha falta de discernimento (e educação) que até criei um resumão:
O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…esquecem que os criticados são fanzines!!! Revistas sem finalidades comerciais que não ambicionam mais que a diversão de seus autores! Não vêem diferença alguma numa revista impressa no fundo do quintal com um gibi do Batman!!!O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…esquecem que NÃO EXISTEM revistas profissionais em bancas para serem criticadas! No máximo livros de quadrinhos que objetivam narrativas mais autorais.O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…comparam obras internacionais, bem remuneradas a autores nacionais que jamais são pagos (por editoras!) e que, por isso, não têm como se sustentar de HQ e se aprimorar no ofício dos quadrinhos.O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…pedem qualificação do artista, quando na verdade, são necessários meses/anos de exercício diário para isso – e para que? Vai trabalhar aonde? Prá ganhar quanto? Por quanto tempo? Vai viver de quê neste período de exercício?O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…os críticos são OUTROS FANZINEIROS FRUSTRADOS, que possuem um trabalho absolutamente sem relevância como o dos criticados. E que fazem exatamente tudo que falam para não fazerem.
Normalmente quem faz curso de desenho, se aperfeiçoa, ambiciona trabalhar no exterior – raro são os que possuem tempo/grana para isso e ficam por aqui, produzindo seus trabalhos, sem ganhar nada. Por amor. Ou seja: eles não produzem fanzines nem HQs – fazem desenho, querem viver disso e como ninguém paga nada por aqui, vão trabalhar fora. Estamos num país muito, muito podre – é natural esta escolha. Acho que alguns leitores de histórias em quadrinhos (hoje, um produto de luxo, para poucos) acham que estão no primeiro mundo, onde todo mundo pode pagar as contas fazendo o que quer.
Claro que todos gostariam de publicar. Todos querem ser elogiados, premiados e reconhecidos. Suas histórias e desenhos são suas paixões. Em que mundo esses detratores vivem? Não no humano, com certeza.
Gosto de jogar futebol nas quartas-feiras, depois do trabalho. Tenho a obrigação de me tornar um profissional por causa disso? Ou parar de jogar com os amigos porque não sou tão bom ou não desejo me tornar um profissional?
Já tiraram qualquer possibilidade de um autor nacional se sustentar com quadrinhos neste país. Não deixe que tirem também o prazer de podermos ao menos brincar um pouco com as HQs.
Viva la résistance!














bongop estava matando trabalho no dia 26 de April de 2009 às 7:51 pm
Daniel
Gosto mesmo destes teus posts em que dizes o te vai na alma!
Força aí!
Jean Ok estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 2:37 am
Eu não sou mais frequentador de fóruns por falta de tempo, mas também acho que é coisa de desocupado. Me sinto um vagabundo quando posto uma mensagem por mês num fórum ou no Orkut.
Essa “mania” de descer a lenha na HQ nacional com a desculpa fajuta de que “é pra melhorar o trabalho dos autores” é o mesmo que um assassino matar uma pessoa dizendo que “é pra mandá-la pra perto de deus”. Mas cê tem que lembrar que internauta brasileiro, em geral, é um lixo humano mesmo. Já leu isto(?):
http://meiobit.pop.com.br/meio-bit/artigo/voce-e-brasileiro-parabens-voce-e-considerado-escoria-digita
Não são só os detratores da HQB que se comportam mal. Vivemos num país de vândalos, cara. =) Se essas discussões em fóruns te deixam mal, talvez seja melhor você parar de frequentar e se concentrar no que realmente interessa – suas HQs. Até porque as baboseiras que soltam nesses lugares morrem por lá mesmo, não modificam em nada a realidade. São só garrafas com mensagens soltas no mar. Não prejudicam a HQ nacional, a meu ver.
Sobre os críticos de quadrinhos, percebo que eles são mais “sinceros” com a produção nacional independente. Com o material estrangeiro, há uma certa… diferença no tratamento.
Daniel Pereira dos Santos estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 8:27 am
Valeu o comentário, Bongop! Acho que isso tudo são resquícios de bullying quando estudava. Não suportava valentões e partia pro tapa. Claro que na internet o mais comum é que o cara que normalmente apanha (um nerd coitado que normalmente sofre este tipo de abuso), faça bullying. Vai entender este mundo…
Pues Jean. O problema é que, deves já ter percebido, navego bastante atrás de novidades nacionais na rede. E ando cruzando com este tipo de conteúdo mais seguido que eu gostaria. Mas vou tirar da minha lista a visita em alguns lugares, com certeza. É fato que tem muito vândalo por aqui – infelizmente o Brasil é reconhecido por isso na internet : ( . Também concordo que isso não muda nada (nem prá pior nem para melhor) da realidade do mercado. Mas penso no cara que tá iniciando um trabalho (jovem, inexperiente) e lê umas porcarias dessas e me irrito – falta também uma reação dos atacados. Reagir diretamente é tolice e perda de tempo, mas podíamos nos unir mais, que não nestas micro panelinhas que é formado o fandom brasileiro de quadrinhos.
Quanto à crítica, já até escrevi o que eu acho: http://ds.art.br/onde-estao-os-escritores/
Jean Ok estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 9:39 am
Nos unir como? Uma entidade, tipo a CQB? (Isto não é ironia!)
Eu não tinha pensado nesse lance dos novatos – de como eles podem ser afetados por essas merdas, etc. Partir pra confrontos (bate-bocas) na internet, é infrutífero. Mas talvez haja algo que possa ser feito pra criar um contraponto a essa montanha de merda que as comunidades de HQ se tornaram. Eu não sei ainda o que seria isso, mas gostaria de fazer algo a respeito.
Daniel Pereira dos Santos estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 10:22 am
Entonces. O pouco que vi da CQB… não curti muito. Achei ser mais uma reunião de amigos (posso estar MUITO errado nesse ponto) e senti um tom nacionalista, xenófobo que não curto nem um pouco. Do tipo “se é do Brasil é bom (!)”, “lixo americano (!!)” e “as grandes obras e personagens são todas copiadas do Brasil (!!!)”.
Mas a idéia de ter ao menos uma entidade com um índice (site, blog etc) do que é feito atualmente no Brasil, é boa. Mas aberta: independente de qualidade, estilo e com certeza, mais que absoluta, sem discurso. Neutra. Apenas para mostrar o que é feito, o que existe. Nesse lodo que é a internet é incrível qua ainda não tenha sido feito isso de forma prática e funcional.
Jean Ok estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 11:43 am
Para fins apenas de divulgação do que existe, o blog Zine Brasil já não cumpre essa tarefa?
Daniel Pereira dos Santos estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 12:15 pm
Como divulgação o ZB funciona perfeitamente, mas penso mais num índice, categorizado. Organizado a ponto de se encontrar todo mundo e constantemente atualizável pelos próprios autores e administradores. Aí agregava notícias, trabalhos etc etc etc
Vou fazer um.
Rodrigo Nemo estava matando trabalho no dia 27 de April de 2009 às 5:25 pm
Bom, não acho que um crítico deva ‘aliviar’ ao avaliar um fanzine ou publicação independente, embora os parâmetros de julgamento devam ser, sim, diferentes. O que acho curioso é que a crítica parece ter vergonha de admitir quando um gibi nacional é muito bom. Comprei há poucos dias uma Nanquim Descartável e uma SHem-Ha-Mephorash (é assim?) e, num momento de vagabundagem durante o trabalho, fucei na Internet atrás de críticas sobre os dois gibis. A Nanquim, que é muito boa, recebeu os merecidos elogios. Já a Shem…, uma surpresa de altíssimo nível, apenas elogios frios, tímidos, quase protocolares, como se fossem tapinhas nas costas. Se o gibi tivesse um selo Vertigo, uma assinatura tipo Neil Gaiman ou Alan Moore, seria aclamado, viraria filme, ganharia trocentos prêmios… No mesmo site (o único em que achei uma resenha do gibi), coisas como Guerra Skrull, INvasão Skrull Infinita, sei lá, desfilavam em carro de bombeiro com chuva de papel picado.
Daniel Pereira dos Santos estava matando trabalho no dia 28 de April de 2009 às 7:10 am
Primeiramente têm-se ver a quantidade de sites que fazem análises de gibis. Contou? Então. Agora veja quantos desses sites fazem uma crítica concisa. Não estou falando de nacionalidade da obra, estilo etc etc etc. Eu acho que é muito mais uma questão de crítica de qualidade questionável. Querendo ou não a maioria dos gibis são coisas para jovens ou os ainda mais jovens. E a profundidade de análise também não passa muito mais que isso na imensa maioria. Quando um trabalho não possui um selo, uma editora, acredito que o crítico já sinta (pré conceito) que ele não está completamente pronto – maduro. O que na maioria das vezes, está certo – mas… NEM SEMPRE. Isso dá a liberdade do crítico sempre sugerir mudanças ou melhorias nestes casos – o que jamais acontece numa revista da DC, Image ou coisa que o valha (mesmo quando piores que os ditos zines). Já vi críticas que simplesmente não leram os gibis ou só passaram os olhos – tanto fanzine quanto gibi norte-americano. Mas há o caso contrário – do analista ser muto bom e tecer comentários pertinentes – independente da nacionalidade ou selo que acompanha a história. Acho que é mais um problema de críticas limitadas que qq outra coisa. E quem vai ser o louco de dizer que determinado trabalho independente / autoral / amador é tão bom quanto um gibi de tal editora?
Rodrigo Nemo estava matando trabalho no dia 28 de April de 2009 às 9:25 pm
Na verdade, tudo isso se deve ao vácuo que é o mercado (?) nacional de quadrinhos. Afinal, a maioria desses caras não são profissionais, também, mas caras que gostam de quadrinhos e criam um blog, site etc.
Um crítico profissional deveria ter a obrigação de perceber quando tem em mãos alguma coisa digna de nota, como um gibi independente, feito por quadrnihistas diletantes, com qualidade profissional. Se não percebe, tem que mudar de profissão.
Lembra a lenda do estagiário de jornalismo que saiu da redação às 8h para uma entrevista coletiva e voltou às 19h, dizendo que não tinha matéria. “Perdemos a hora, ficamos presos num engarrafamento por causa de um incêndio enorme, com gente se jogando da janela…”. O chefe desesperado pergunta ao infeliz se ele tem matéria disso, se tem foto, e ele. “Não, pô, minha pauta era outra”.
soldado estava matando trabalho no dia 29 de April de 2009 às 11:09 am
acho normal que o meio amador, independente e etc seja aquele aonde as discussões são mais escrotas, todas as artes – que tive contato, música, pintura, poesia…- são assim, talvez seja natural da pessoa desconhecida falar (geralmente muito mal) de todo mundo, para parecer maior.
ultimamente eu prefiro o refrão dos beatles: “Life is very short and there’s no time, for fussing and fighting my friend.”
aaa to doido pra fazer hqs de novo!
Daniel Pereira dos Santos estava matando trabalho no dia 30 de April de 2009 às 7:34 am
Grande Soldado! Certo como sempre! Deveria apagar este blog justamente por isso – chega de confusão. Ou apenas colocar links de outros e minhas HQs. Mas é muito mais fácil escrever besteiras do que desenhar.
Desenha, loco! Felicidade prá mim é fazer minhas HQzinhas quando posso! Por uma absurda realidade cruel, infelizmente, estou podendo cada vez menos…