Histórias em Quadrinhos • DS.art.br

Daniel Pereira dos Santos


Pelo direito de ser amador

Uma febre recente que se espalha por orkuts, twitters, blogs e fóruns internet afora é a de falar mal do quadrinho nacional. Até sites especializados começam a destilar um pouco sobre o assunto. É até compreensível. Ultimamente tem havido uma avalanche de publicações nacionais e de sites com seus criadores pedindo por um pouco de atenção. Nada mais nornal que uma reação a isso.

Malham mesmo. Com fervor e sem pudor. Então é o caso de ir às bancas para avaliar se as HQs são tão ruins quanto comentadas.

Epa.

Não existe NENHUMA publicação brasileira (que não seja humor ou infantil) em bancas. Então, peraí… o que estão tão fervorosamente criticando ?

Fanzines. Ou os atualmente ditos ‘independentes’. Publicações sem âmbitos profissionais e comerciais. Sério. A que ponto chegamos.

Suas justificativas são semelhantes (assim como os insultos gratuitos): o de melhorar o cenário nacional. Que cenário? Sinceramente me pergunto como podem chegar a tal conclusão detonando o trabalho alheio da forma que o fazem. Obviamente é somente para chamar atenção “me leiam, eu existo”. Outro ponto engraçado que merece registro é que estes ‘criticos’ nunca falam das obras publicadas no Brasil – os livros de quadrinhos. Provavelmente por medo de ir contra peixe grande, as editoras (normalmente quem critica também quer publicar e não corre o risco de se queimar).

Escrevem de tudo: que seus autores são responsáveis pela inexistência de mercado, que não aceitam críticas, que seus trabalhos são porcos, não buscam aperfeiçoamento, que falta originalidade, que são covardes… ou seja, tudo o que se esperar de um profissional.

Esclareço: um profissional é aquele que possui ofício rotineiro e é remunerado para isso. Já o amador, faz… por paixão. Por gostar tanto de HQ que, nas horas vagas (sim, porque ele não ganha um centavo com isso – ele tem outro emprego para se sustentar), produz seu desenhinho, seus quadrinhos. É um passatempo. Um hobby. Faz quando pode, do melhor jeito que dá.

Mas até disso reclamam: que hoje todo mundo faz quadrinhos no Brasil por hobby. Novamente, nada mais esperado: ninguém ganha porcaria nenhuma fazendo HQ por estas bandas – esperar o que? Uma enxurrada de trabalhos com qualidade ímpar? Eu fico tão puto com tamanha falta de discernimento (e educação) que até criei um resumão:

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…esquecem que os criticados são fanzines!!! Revistas sem finalidades comerciais que não ambicionam mais que a diversão de seus autores! Não vêem diferença alguma numa revista impressa no fundo do quintal com um gibi do Batman!!!

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…esquecem que NÃO EXISTEM revistas profissionais em bancas para serem criticadas! No máximo livros de quadrinhos que objetivam narrativas mais autorais.

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…comparam obras internacionais, bem remuneradas a autores nacionais que jamais são pagos (por editoras!) e que, por isso, não têm como se sustentar de HQ e se aprimorar no ofício dos quadrinhos.

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…pedem qualificação do artista, quando na verdade, são necessários meses/anos de exercício diário para isso – e para que? Vai trabalhar aonde? Prá ganhar quanto? Por quanto tempo? Vai viver de quê neste período de exercício?

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…os críticos são OUTROS FANZINEIROS FRUSTRADOS, que possuem um trabalho absolutamente sem relevância como o dos criticados. E que fazem exatamente tudo que falam para não fazerem.

Normalmente quem faz curso de desenho, se aperfeiçoa, ambiciona trabalhar no exterior – raro são os que possuem tempo/grana para isso e ficam por aqui, produzindo seus trabalhos, sem ganhar nada. Por amor. Ou seja: eles não produzem fanzines nem HQs – fazem desenho, querem viver disso e como ninguém paga nada por aqui, vão trabalhar fora. Estamos num país muito, muito podre – é natural esta escolha. Acho que alguns leitores de histórias em quadrinhos (hoje, um produto de luxo, para poucos) acham que estão no primeiro mundo, onde todo mundo pode pagar as contas fazendo o que quer.

Claro que todos gostariam de publicar. Todos querem ser elogiados, premiados e reconhecidos. Suas histórias e desenhos são suas paixões. Em que mundo esses detratores vivem? Não no humano, com certeza.

Gosto de jogar futebol nas quartas-feiras, depois do trabalho. Tenho a obrigação de me tornar um profissional por causa disso? Ou parar de jogar com os amigos porque não sou tão bom ou não desejo me tornar um profissional?

Já tiraram qualquer possibilidade de um autor nacional se sustentar com quadrinhos neste país. Não deixe que tirem também o prazer de podermos ao menos brincar um pouco com as HQs.

Viva la résistance!

Brazil

Eu me controlo para não tornar este site algo como um Twitter – não fugir do tema de quadrinhos (nacionais) ou mesmo (fazer) pequenas divagações.

Eu não curto super-heróis. Não os leio há… mais de quanto? 10, 15 anos?

Herói brasileiro nunca colou.

A HQ (nacional) de terror (horror?) naufragou há muito tempo.

Sou apenas uma mané amador.

Hm.

Definitivamente eu não devo tornar este site algo vago e viajante como meu Twitter.

25º Prêmio Angelo Agostini 2008

Mais um AA da AQC-ESP. Estive lendo a respeito, falando a respeito e pensando a respeito do Angelo Agostini.

Hora de escrever a respeito.

É interessante como se levantam dúvidas a respeito desta ou daquela premiação – não estou falando só do AA ou mesmo do HQ Mix – mas de todo o tipo de concurso, prêmio etc. Eu mesmo, com telhado de vidro, já joguei minhas pedras. Estupidez, eu sei – pensei até em apagar os posts, já que não concordo mais com estas opiniões passadas, mas gosto de demonstrar como sou ignorante. Gosto de pensar que evoluo com isso.

Voltando. Sinto que na verdade toda premiação é, de certa forma, injusta. E ao mesmo tempo, inquestionável. O que mais leio é que, tanto o Angelo Agostini quanto o HQ Mix (e aqui só me refiro ao obscuro mercado nacional inexistente), só elegem os amigos, as rodinhas, o grupo queridinho da vez. Concordo, mas ao contrário do que se possa concluir, acho isto justíssimo.

Antes de justificar, imagine a seguinte situação: uma premiação fechada – com um juri selecionado e com regras claras do que e como será o julgamento (não, nenhum dos dois maiores prêmios nacionais de quadrinhos possuem estas características). Você deve conhecer um ou outro concurso assim – não escrevo agora só de quadrinhos. É usual neste tipo de evento ter também o “juri popular”. Pode ser loucura minha, mas raramente vejo a escolha do juri “oficial” casar com a dos apreciadores (o popular) de qualquer objeto julgado. Por que?

Voltando de novo. Eu realmente acredito que o Angelo Agostini e o HQ Mix elejam aqueles trabalhos que seus autores possuam mais contatos, divulgação, entrosamento com seu público e círculo de trabalho. Estes “amigos” que votam, não necessariamente na melhor obra, são pessoas que leram seu trabalho, que tiveram afinidade com ele ou com o próprio autor – ou mesmo lembram do nome do cara pela sua longa jornada de trabalho sem ganhar um centavo com isto. É errado isso? Eu não acho – os autores que já levaram algum prêmio, de uma forma ou de outra, batalharam para isto. Talvez os melhores trabalhos – sob um ponto de vista qualquer, não levem esta ou aquela medalha (e se preocupar com isto é besteira), mas não levar um Angelo Agostini é prova que não estão em sintonia com determinado público leitor  – ou não o suficiente ainda para ser o mais votado.

No Angelo Agostini todos podem participar – gente comum que não fora seletamente convidada nem faz parte de um juri oficial. Você e eu. E todos nossos amigos!

Cara – e isso pode ser besta prá caramba, mas como é bom poder participar e ter amigos!

Segue a cédula de votação do 25º Prêmio Angelo Agostini 2008, copiada e colada do Bigorna. Prestigie, vote, boa sorte e parabéns aos futuros ganhadores!

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Em fevereiro de 2009 realizaremos o 25º Dia do Quadrinho Nacional, com a entrega do Prêmio Angelo Agostini. Podem participar todo quadrinhista (profissional ou amador), estudioso, colecionador ou aficionado pelo Quadrinho nacional, basta preencher a cédula e enviar para a caixa postal da AQC-ESP, para os endereços eletrônicos: votacao@aqc-esp.com.br e angeloagostini@bigorna.net, até 05 de janeiro de 2009 (se não quiser ou não souber, não há a necessidade de votar em todos os itens). Feita a apuração, os vitoriosos serão homenageados, com direito a uma exposição, troféu e muita badalação. O resultado final e o local da festa serão divulgados no final de janeiro em revistas, em jornais de circulação nacional, no site da AQC-ESP, no site Bigorna.net e no QI.

Os critérios
Existem seis categorias no Prêmio Angelo Agostini. Na categoria Mestres do Quadrinho Nacional deve se votar em TRÊS artistas que tenham se dedicado aos Quadrinhos, pelo menos nos últimos vinte e cinco anos.
A lista de grandes profissionais que podem ser lembrados e votados para o prêmio de Mestre do Quadrinho Nacional é a seguinte:

DÉCADA de 50: Fernando Lisboa.
DÉCADA de 60: José Meneses, Mario Jaci, Luiz Meri, Kazuhiro, Wilson Fernandes, Dag Lemos, Manoel Ferreira, Maria das Graças Maldonado, Marcos Maldonado, Francisco de Assis, Nilzon Azevedo, Lucaz, Edmo Rodrigues, Fernando Almeida, Josmar Fevereiro, Edgard de Sousa, Antonio Martins, Manuel Nunes, Joseval e Clip Pop.
DÉCADA de 70 e 80: Osvaldo Sequetin, Nelson Padrella, Wanderley Felipe, Ailton Elias, Eduardo Vetillo, Bira Câmara, Altair Gelattti, Sebastião Seabra, Deodato Filho, Gustavo Machado, Rodval Mathias, Itamar Borges, Mozart Couto, Watson Portela, Emir Ribeiro, Alain Voss, Henrique Magalhães, Sergio Morettini, Julio Emílio Braz, Franco de Rosa, Novaes, Toninho Lima, Elmano, E. C. Nickel, Cesar Lobo, Francisco Vilachã, e Pedro Mauro Moreno.
FANZINES: José Agenor Ferreira, Aimar Aguiar e Gutemberg.
ESTUDIOSOS: Dagomir Marquezi e Sérgio Augusto.

Evidente que podemos não ter lembrado de algum artista, mas que você considerá-lo para a votação incluindo-o na lista.

Nas categorias de Melhor Desenhista, Melhor Roteirista e Melhor Cartunista deve se apontar qualquer profissional ou amador que esteve em atividade durante o ano de 2008. Procure folhear revistas, consultar coleções e se informar. Não esqueça dos profissionais que desenvolvem seu trabalho nos grandes estúdios, como o de Mauricio de Sousa, que têm seus nomes poucos divulgados. No Melhor Fanzine é considerado o título publicado durante o ano de 2008 (mesmo que exemplar único), que seja caracterizado como fanzine, ou seja, com informações, notícias, resenhas ou notas sobre Quadrinhos. Não confundir com revistas em Quadrinhos independentes, que podem ser votadas na categoria de Melhor Lançamento.

Já no Melhor Lançamento valem todas as publicações com produção de artistas nacionais que tiveram seu número 1, exemplar especial ou número único lançado em 2008, para o mercado brasileiro. Para ajudar a escolha publicamos uma lista de revistas que saíram neste ano. Evidente que podem surgir novos lançamentos e publicações que não estão na lista, nada impede que você vote numa outro exemplar, indicando a editora ou o editor. Finalmente, o Prêmio Jayme Cortez vai para quem tenha incentivado nossa arte através da divulgação, edição, promoção ou qualquer ação que tenha aberto espaço para o Quadrinho nacional, também durante o ano de 2008.

Lista de Lançamentos de 2008
Nessa lista você encontrará o nome do lançamento seguido do nome da editora ou do editor independente. A lista está colocada de maneira aleatória, sem preferência ou favorecimento. Caso você conheça algum outro lançamento que não esteja relacionado, vote nele, indicando a editora ou o autor.

Lançamentos de 2008
Ju & Jigá – Marca de Fantasia
Você Sabia? – Marca de Fantasia
F.D.P. #1 – Leonardo Santana
Almanaque Especial Turma do Menino Maluquinho #1 – Globo
O Mensa #1 – Assis Lima
Mesmo Delivery – Desiderata
Blenq #1 – Júpiter II
Quadrante Sul #1 – Denílson Reis
Tempestade Cerebral #1 – Alex Mir
Almanaque Bidu e Mingau #1 – Panini
Rock Animal #1 – Abril
Níquel Náusea, em Boca Fechada Não Entra Mosca – Devir
Encarnação do Demônio – Conrad
Vale-Tudo – Opera Graphica
Macambira e Sua Gente – Marca de Fantasia
Boca do Inferno #1 e 2 – José Salles
O Bom & Velho Faroeste #1 – José Salles
Depois da Meia-Noite #1 a 3 – Laudo Ferreira Jr.
Entidade Zero ½ do Fim – Editora MRD
Graficsex – Charles Souza
O Circo de Lucca – Devir
Tina e os Caçadores de Enigmas #1 – Panini
Virtualzinho #1 – Internauta
Momochico #1 – Panini
Horizonte Zero #1 – Emanuel Thomaz
Informativo Quarto Mundo #0 e 1 – Daniel Esteves
Níquel Náusea, Tédio no Chiqueiro – Devir
Lorde Kramus #1 – Gil Mendes
Parafuso! – Emanuel Thomaz
Penitente #1 – Lorde Lobo
Caricaras #1 – Erico San Juan
Se Deus Fosse Uma Mulher #1 – Michael Kiss
Velta 35 Anos – Emir Ribeiro
Metrópoles – Marca de Fantasia
Happy Slap! – Marca de Fantasia
Chutando Cachorro Morto – Elvis Almeida
Clima #1 – Chagas Lima
Jornal Caricaras – Érico San Juan
Mariazinha em Verso & Prosa – Fabio Turbay
Papo Casal – Ronaldo Rony
Salão de Humor de Volta Redonda – Sec. Mun. Cult. Volta Redonda
The Zoo #1 – Michael Kiss
Almanaque Histórias de Três Páginas Turma da Mônica #1 – Panini
Muertos – Daniel Pereira dos Santos
Senninha e sua Turma #1 – HQM
FanSign #1 – Núcleo de Ilustração e Quadrinhos
O Espetacular Homem-Caveira #1 – Fator RHQ
Murassaki #1 – Cristiane Armezina
Crono 4 #1 – Pedro Yuiti
Níquel Náusea, Minha Mulher é uma Galinha – Devir
Necronauta #1 – Danilo Beyruth
Almanaque Você Sabia? Sítio do Picapau Amarelo #1 – Globo
Plinc – Beto Meneses
Senninha e sua Turma – Ayrton Senna, um Herói Brasileiro – HQM
Icfire #1 – Chagas Lima
Sangue Latino – Grupo PADA
Projeto Leitor #1 – Cristiano Silva
Quadrinhópole – Leonardo Melo
Avenida - André Caliman
Conseqüências – Caio Majado
N’Roll – Roadie Crew Editora
Filé – Editora MRD
Tina Especial  #1 – Panini
Hu-Quan #1 – José Salles
Katita Humor & Malícia – Anita Costa Prado
Lâmia #1 – Roberto Hollanda
Tokyoaki #0 – Vermis
Os Doze Trabalhos da Mônica #1 – Panini
Medley – Editora MRD
O Melhor de Crânio #1 – Francinildo Sena
As Melhores Tiras do Gatão #1 – Edson Gonçalo
Nob – Vinícius Mendel
Patacoadas #1 – José Salles
Turma da Mônica Jovem #1 e 2 – Panini
A Era de Bronze dos Super-Heróis – HQM
Personagens dos Gibis Especial #1 – José Salles
Subversos #1 e 2 – Alexandre Manoel
Tiras de Letra Até Debaixo D’Água – Editora Virgo

Preencha a cédula e envie para nosso endereço: AQC-ESP/ Worney Almeida de Souza Caixa Postal 675 - CEP 01059-970 – São Paulo (SP) ou para os endereços eletrônicos: votacao@aqc-esp.com.br e angeloagostini@bigorna.net (se for enviar por e-mail, copie a cédula completa, cole no e-mail e preencha). O prazo é até 05 de janeiro de 2009. Vote na categoria de Mestres do Quadrinho Nacional em TRÊS nomes e nas outras categorias vote em DOIS nomes, indicando 1º 2º lugares.

Participe e prestigie o Quadrinho nacional e seus artistas!

CÉDULA 25º Prêmio Angelo Agostini 2008 AQC-ESP
MELHOR DESENHISTA DE 2008
MELHOR ROTEIRISTA DE 2008
MELHOR LANÇAMENTO DE 2008
MELHOR FANZINE DE 2008
PRÊMIO JAYME CORTEZ
MELHOR CARTUNISTA DE 2008
MESTRES DO QUADRINHO NACIONAL

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Banda desenhada

  • Eu procurava por HQs online quando cruzei pelo blog do sr. Nuno “Bongop” Amado – leituras de Banda Desenhada. É interessante a naturalidade com que trata sobre quadrinhos de tão variados estilos e nichos: do “mainstream” ao independente, de trabalhos comerciais ao mais autoral. E isso vindo de todos os países. inclusive o português – de Portugal, de onde ele é.
  • Desconhecia o trabalho português. Sou um ignorante, nunca neguei. Vez ou outra sei sobre alguma HQ européia, mas no fim o mercado de lá é absurdo, imenso e variado (e em línguas também, não se esqueça), para conhecê-lo de fato. No site Divulgando Banda Desenhada, você encontra um conjunto de links e notícias de tirar o chapéu. Continuamente atualizado, há material suficiente lá para se perder por dias. Ou meses. Muita BD online e enorme quantidade de autores nacionais (de lá). Eu começaria pelo post Blogues, Sítios e Portais portugueses com Banda Desenhada – De A a Z. Só alí tem uma lista de links de dar uma canseira no vivente.
  • Ao meu ver isso prova duas coisas: a) falta MUITA coisa ao Brasil ainda. Você pode rir e achar que eu descobri o óbvio, mas só após visitar um zilhão de sites portugueses que percebi a dimensão de como somos terceiro mundo e subdesenvolvidos. Como estamos atrasados e somos pobres. b) falta MUITA coisa aos brasileiros. É incrível a naturalidade dos portugueses em tratar juntamente do autor nacional e estrangeiro (de todo o planeta!). Do amador ao profissional. Do trabalho mais autoral ao comercial. Aqui você consegue enxergar um Omelete falando de HQ online amadora brasileira? Há uma profusão de sites de notícias sobre quadrinhos tão grande quanto nosso país. Se não maior. Detalhe: a população de Portugal é quase a mesma do Rio Grande do sul… que é quase dezoito vezes menor que a brasileira… c) A produção portuguesa é imensa e o Brasil é café com leite – seja impressa ou online. Se trabalha muito mais e se mostra muito mais coisa nas terras de lá que nas terras daqui. Opa. Não eram duas coisas? Depois dizem que os portugueses é que são bobocas – tudo bem, eles dizem o mesmo de nós. Infelizmente começo a concordar com eles, ora pois.
  • Falando nisso, a secura que tenho encontrado de histórias em quadrinhos online tupiniquins é triste. Há o acervo HQ, é claro, com dezenas (centenas?) de trabalhos onlines e os tantos outros que eu mesmo linkei por aqui… mas não estou achando muito mais que isto na web.
  • Há o Viajante Jaum, para não dizerem que não dei nenhum link novo de HQ online. Um pusta trabalho atualizado DIARIAMENTE. Haja gás.
  • Há a revista Ogiva, em PDF para download. Com Anderson Cossa, Gerson Witte, Juliano Botti, Vagner Francisco, Denis Pacher, Greifo, Rai, Alexandre Jubram, Beto Martins e Vanessa.
  • Ricardo Sanchez (que possui excelentes trabalhos em seu site, diga-se de passagem – inclusive uma HQ online), tem contribuído muito ao Quinto Mundo com links sobre o tema. Mas normalmente estrangeiros. Ele já linkou:
  • Kukuburi
  • Dark Horse Presents
  • Kaz Underworld
  • Maakies
  • Kioskerman
  • Autoliniers
  • El blog de Tute
  • ACT-I-VATE
  • No Brasil há muita coisa, sem dúvida. Mas a imensa maioria são tiras e cartuns onde suas mensagens são mais rapidas e simples de serem passadas que numa história em quadrinhos, com x páginas. Muitos podem pensar que é até mesmo característica da internet e leitura em tela, mas não aceito como desculpa para tamanha desproporção e aridez de produção online brasileira.
  • Aliás – percebeste que de todos estes atrasos/empecilhos/problemas sobre o quadrinho nacional que citei, nenhum fala dos leitores de quadrinhos ou editoras – usualmente os culpados pelos independentes da baixa leitura de HQB? Talvez os artistas brasileiros tenham que parar de falar tanto e começar a trabalhar mais.
  • Muita gente discorda de mim, com certeza. A maioria? Talvez. A própria Quadrinho.com – que atualizou seu site e sistema há pouco, publicou ontem um texto de Michelle Ramos sobre a qualidade, dinâmica e diversidade do material daqui. Mas estou falando mais sobre material publicado online, não se esqueçam…
  • O interessante que hoje em dia é mais fácil e barato ter um site de quadrinhos que uma revista impressa independente. E na presença virtual com certeza se alcança mais leitores que a versão física, não há dúvidas…
  • Como viver disso? Seu eu soubesse, já vivia.
  • Aproveitando, Samara convida para o evento Aceita Cultura?, este final de semana, em Minas. Acho que estamos todos precisando, Samara. Saber mais, fazer mais e falar menos.

Venda de gibis

Então você fez um fanzine, uma edição independente, uma revista em quadrinhos. Ou seria uma graphic novel? Independentemente do suporte e acabamento é um gibi, porra! Desculpe pelo ‘porra’. Não escrevo mais ‘porra’. Vamos chamá-lo de gibi de quadrinhos, por conveniência. É o nome mais curto para digitar. Gibi.

Fizeste teu gibi e agora quer vendê-lo. Anunciou até no estimado idolatrado salve salve Quadrinhos Independentes, do grande Edgard Guimarães. Vendeu cinco exemplares. Não satisfeito com a saída do gibi, entrou em contato com uma porrada de outros zineiros. Mandou trinta cartas. Para se certificar, ainda entrou para o universo digital e enviou mais cinquenta e-mails. Depois de tudo isso você alcançou a inacreditável venda de vinte e cinco edições da sua revista independente.

Você tenta se matar.

Mas não desiste. Digamos que você tenha tido uma preocupação maior com acabamento e a imprimiu em offset, capa colorida bonitaça, mil exemplares. Gastou aquela nota. Começou a divulgar na internet coisa e tal. Dali três meses você já tem uma cota de vendas impressionantes: cento e cinquenta exemplares vendidos. Você está saltitante. Ao menos até perceber que sua lista de contatos com outros autores possui a exata quantidade de gibis vendidos.

Depressão.

Reação: você tem que “furar a bolha”. Alcançar o leitor. Vai na banca do seu coração, na comic shop mais perto e naquela livraria que o dono é seu amigo – coloca vinte cópias em cada estabelecimento. Semana após semana você retorna aos pontos de venda para perceber que não vendeu um único exemplar. Após sofridos dois meses, seu amigo-dono-da-livraria já está puto que você não tira aquela tranqueira de lá. Você deprimido retira todos seus zines dos locais de venda. Após o terceiro mês, é claro. Até que não foi tão mal. Vendeu oito exemplares. Em três meses.

Por uma iluminação digna dos maiores santos – até porque são todos loucos, você percebe seu erro desde o início. Falta distribuição! Uma andorinha não faz o verão e três bancas não completam sua coleção. Já que torrou grana imprimindo mil exemplares, o que é um punzinho (gostaram do punzinho?) para quem agora está contratando uma distribuidora? Para mil exemplares, como a distribuidora que é camarada sua, vai cobrar apenas 50% do preço da capa. Nesta quantidade eles normalmente cobram 55%, 60%. Ah. Adiantados. E lá vai seu gibi com distribuição para todo estado. Hã? País? Melhor ainda. Ahn…? Ok. País, mas só capitais.

Passam-se mais três meses. Das mil revistas, você vendeu duzentos e vinte e duas. Foi bem até. A distribuidora, já puta da cara contigo (porque todas as bancas, comic shops e livrarias querem se livrar daquele lixo faz uns sessenta dias – imagina um gibi ficar mais de um mês em uma banca!) exige que você decida se vai querer só as capas das revistas ou vai pagar o reembolso, para tê-las inteiras. Você, quebrado, não tem opção. Dali três semanas você recebe aquela maçaroca de capas.

Após um mês sem falar com ninguém, você decide trabalhar com outra coisa. Publicidade, design… sei lá. Qualquer coisa. Quando perguntado – pelo resto da vida, o que deu errado, você sempre responderá que “não há mercado”.

Apesar das bancas – abarrotadas de HQ, dizerem o contrário…

Mas então o que deu errado? Não sei. Mas posso levantar três pontos que percebi e que vejo pouco sendo falado sobre a decisão na compra de um leitor de quadrinhos. Podem ser um ou mais destes pontos, que levam alguém a comprar sua edição. São eles:

  • A editora é conhecida. Poucos comprarão algo da ds.art.br comics. E provavelmente quem o fizer, deverá ser outro autor – mesmo que amador (desenhista, escritor etc). Mas muitos se arriscariam a gastar seu rico dinheirinho se o que estiver por trás é uma grande editora.
  • O autor é conhecido. Um Zé Mané como eu não vende. Mas um Alan Moore impresso em papel jornal pela ds.art.br-comics-fundo-de-quintal vende às pampas.
  • O obra é conhecida. Um Zé Mané como eu continua não vendendo. Mas um Zé Mané que teve boa acolhida pela mídia especializada, vai dar mais saída que prostituta (eu escrevi prostituta…) a dé reau.

Há ainda aquela possibilidade de a revista ser tão boa, mas tão boa – normalmente em desenhos (pobres roteiristas), que acaba vendendo. Mas é um ponto que não elenco como principal, pois sofre de muitas variantes. Primeiro é julgar a qualidade – quem faz isso é o leitor que compra, não você, autor. Afinal o objetivo é venda, então qualidade é encontrar saída para seu trabalho. O que usualmente conflita com o “faço o que gosto”. Ou “quero”. Ou ainda: “sei fazer”.

Há milhares de outras coisas. Eu mesmo não sei a solução. Se soubesse já tava rico vendendo gibi. Nem as editoras grandes sabem. Elas também lançam edições que vendem mal. E muito mais do que elas gostariam.

Toda esta historinha é fictícia. Mas ela já aconteceu muitas e muitas vezes do Oiapoque ao Chuí (aqui do lado). Acho que é um compêndio de um dos assuntos que se discute no fórum do Quarto Mundo: o Quinto Mundo. Há propostas sobre o assunto. Dá uma passada lá.

Vai que no próximo empreendimento você chega até a número dois do seu gibi. Com lucro, é claro.

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