Histórias em Quadrinhos • DS.art.br

Daniel Pereira dos Santos


Venda de gibis

Então você fez um fanzine, uma edição independente, uma revista em quadrinhos. Ou seria uma graphic novel? Independentemente do suporte e acabamento é um gibi, porra! Desculpe pelo ‘porra’. Não escrevo mais ‘porra’. Vamos chamá-lo de gibi de quadrinhos, por conveniência. É o nome mais curto para digitar. Gibi.

Fizeste teu gibi e agora quer vendê-lo. Anunciou até no estimado idolatrado salve salve Quadrinhos Independentes, do grande Edgard Guimarães. Vendeu cinco exemplares. Não satisfeito com a saída do gibi, entrou em contato com uma porrada de outros zineiros. Mandou trinta cartas. Para se certificar, ainda entrou para o universo digital e enviou mais cinquenta e-mails. Depois de tudo isso você alcançou a inacreditável venda de vinte e cinco edições da sua revista independente.

Você tenta se matar.

Mas não desiste. Digamos que você tenha tido uma preocupação maior com acabamento e a imprimiu em offset, capa colorida bonitaça, mil exemplares. Gastou aquela nota. Começou a divulgar na internet coisa e tal. Dali três meses você já tem uma cota de vendas impressionantes: cento e cinquenta exemplares vendidos. Você está saltitante. Ao menos até perceber que sua lista de contatos com outros autores possui a exata quantidade de gibis vendidos.

Depressão.

Reação: você tem que “furar a bolha”. Alcançar o leitor. Vai na banca do seu coração, na comic shop mais perto e naquela livraria que o dono é seu amigo – coloca vinte cópias em cada estabelecimento. Semana após semana você retorna aos pontos de venda para perceber que não vendeu um único exemplar. Após sofridos dois meses, seu amigo-dono-da-livraria já está puto que você não tira aquela tranqueira de lá. Você deprimido retira todos seus zines dos locais de venda. Após o terceiro mês, é claro. Até que não foi tão mal. Vendeu oito exemplares. Em três meses.

Por uma iluminação digna dos maiores santos – até porque são todos loucos, você percebe seu erro desde o início. Falta distribuição! Uma andorinha não faz o verão e três bancas não completam sua coleção. Já que torrou grana imprimindo mil exemplares, o que é um punzinho (gostaram do punzinho?) para quem agora está contratando uma distribuidora? Para mil exemplares, como a distribuidora que é camarada sua, vai cobrar apenas 50% do preço da capa. Nesta quantidade eles normalmente cobram 55%, 60%. Ah. Adiantados. E lá vai seu gibi com distribuição para todo estado. Hã? País? Melhor ainda. Ahn…? Ok. País, mas só capitais.

Passam-se mais três meses. Das mil revistas, você vendeu duzentos e vinte e duas. Foi bem até. A distribuidora, já puta da cara contigo (porque todas as bancas, comic shops e livrarias querem se livrar daquele lixo faz uns sessenta dias – imagina um gibi ficar mais de um mês em uma banca!) exige que você decida se vai querer só as capas das revistas ou vai pagar o reembolso, para tê-las inteiras. Você, quebrado, não tem opção. Dali três semanas você recebe aquela maçaroca de capas.

Após um mês sem falar com ninguém, você decide trabalhar com outra coisa. Publicidade, design… sei lá. Qualquer coisa. Quando perguntado – pelo resto da vida, o que deu errado, você sempre responderá que “não há mercado”.

Apesar das bancas – abarrotadas de HQ, dizerem o contrário…

Mas então o que deu errado? Não sei. Mas posso levantar três pontos que percebi e que vejo pouco sendo falado sobre a decisão na compra de um leitor de quadrinhos. Podem ser um ou mais destes pontos, que levam alguém a comprar sua edição. São eles:

  • A editora é conhecida. Poucos comprarão algo da ds.art.br comics. E provavelmente quem o fizer, deverá ser outro autor – mesmo que amador (desenhista, escritor etc). Mas muitos se arriscariam a gastar seu rico dinheirinho se o que estiver por trás é uma grande editora.
  • O autor é conhecido. Um Zé Mané como eu não vende. Mas um Alan Moore impresso em papel jornal pela ds.art.br-comics-fundo-de-quintal vende às pampas.
  • O obra é conhecida. Um Zé Mané como eu continua não vendendo. Mas um Zé Mané que teve boa acolhida pela mídia especializada, vai dar mais saída que prostituta (eu escrevi prostituta…) a dé reau.

Há ainda aquela possibilidade de a revista ser tão boa, mas tão boa – normalmente em desenhos (pobres roteiristas), que acaba vendendo. Mas é um ponto que não elenco como principal, pois sofre de muitas variantes. Primeiro é julgar a qualidade – quem faz isso é o leitor que compra, não você, autor. Afinal o objetivo é venda, então qualidade é encontrar saída para seu trabalho. O que usualmente conflita com o “faço o que gosto”. Ou “quero”. Ou ainda: “sei fazer”.

Há milhares de outras coisas. Eu mesmo não sei a solução. Se soubesse já tava rico vendendo gibi. Nem as editoras grandes sabem. Elas também lançam edições que vendem mal. E muito mais do que elas gostariam.

Toda esta historinha é fictícia. Mas ela já aconteceu muitas e muitas vezes do Oiapoque ao Chuí (aqui do lado). Acho que é um compêndio de um dos assuntos que se discute no fórum do Quarto Mundo: o Quinto Mundo. Há propostas sobre o assunto. Dá uma passada lá.

Vai que no próximo empreendimento você chega até a número dois do seu gibi. Com lucro, é claro.

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Cidade Fantasma

Na onda do mote de escritores versus desenhistas, publico mais uma HQ gratuita online dos velhos tempos.

Já falei com alguns escritores sobre o tema e inclusive o sr. A. Moraes publicou em seu diário virtual algo sobre o assunto. A questão de roteiros para HQs. Sempre digo que me assusta aqueles textos todos descritos, quadro a quadro, da narrativa de uma história em quadrinhos. E sempre fugi disso que que nem o Zé do Caixão da cruz. Hm. Zé do Caixão não foge da cruz, desdenha-a. Enfim, todos os meu trabalhos sempre foram baseados em contos. Gostava de terminada história e decidia desenhá-la. Entrava em contato com o escritor para ver a possibilidade de tornar o conto em quadrinhos e – na secura de desenhistas dispostos no mercado que é até hoje, nenhum autor jamais se recusou. Se arrependiam mais tarde, é verdade, mas aí já era.

Das HQs atualmente publicadas Muertos, Dez centavos, Abrace-me, Sétimo filho, Save the Wolves – apenas Pandora figura em seu argumento original com uma descrição minuciosa que acontecia no decorrer do enredo. As outras histórias fui eu, desenhista calhorda com ampla liberdade, que coordenei o que acontecia. Nunca pedi para um roteirista um texto. Meses atrás fiz minha primeira tentativa de ‘texto solicitado’- logo com Gian Danton. Desastre. Acho que tive uma pancreatite, falha nos rins e fígado por causa disso. Mas volto a esta história mais no futuro.

Texto do sr. Renato Rosatii. Desenhos do mestre (doutor, PhD… sei lá… esse cara só fica tirando titulação..) Volnei Matté: a agora webcomic Cidade Fantasma.

Penitente #1

Penitente #01 | 2007 | 20 páginas | 17cm x 26cm | capa e miolo coloridos

Recebi a revista independente do Penitente (adoro esta rima) que comprei no Bodega – uma loja de quadrinhos independentes, que muito provavelmente só vende gibis de vocês-sabe-quem. Meu amigo… o que dizer do Penitente? Eu tenho muitas, muitas, muuuuuuuuuuuuuitas ressalvas sobre histórias em quadrinhos de super-heróis. Não de heróis brasileiros – de super-heróis de qualquer nacionalidade. Já disse que tenho MUITAS ressalvas? Pois bem.

Penitente vale a pena ser comprada e lida. São duas histórias na revista. O editor-autor-fazedor-de-cafezinho da revista teve um cuidado exemplar na edição. Com direito a introdução, meiquinhófe, apresentação do processo de criação e por fim uma contracapa vendedora. Preocupação com detalhes. Este é um dos fatores do sucesso de um trabalho – divulgação e distribuição são outros.

As histórias são simples e eficientes. Os desenhos são competentes e a colorização está de acordo. Tem uma boa impressão e achei muito adequado o formato e o papel escolhido – lembrou muito as edições da Cedibra da década de 80 (Badger – acho que era o nome). Não conheço muito o mercado de heróis hoje em dia, mas não creio que tenha mudado vertiginosamente em relação ao meu tempo – os desenhos e qualidade de impressão devem ter ido as alturas (assim como o preço), mas não devem ter havido maiores mudanças que isto. Achei que Penitente não deve a nenhum “número um” de qualquer HQ de heróis – seja a nacionalidade ou editora que for. Mesmo as grandes.

O Junior (um cara que trabalha ao meu lado e passa o dia inteiro lendo webcomics e, egoísta como só ele, não me passa um linkezinho) disse que era igual a Spawn (como se escreve isso?). O próprio autor comenta sobre isso. Tenho a Spawn #1 (e só a #1) e – após ler Penitente, apesar do mote ser paralelo, percebe-se claramente as diferenças. Mas só nas histórias seguintes que veremos para onde o escritor/argumentisa vai enveredar. Gostei da idéia do orar pela alma do cara. Vamos ver.

O que vejo de complicado é a continuidade. Este tipo de gibi tem que ter sequência e regularidade. Todo mês edição nova e de fácil acesso ao leitor. O que acredito ser impossível sendo independente e tendo que ter outro trabalho para pagar as contas no final do mês. Uma pena. Parabéns ao Lobo, porque me conquistou e vou comprar a #2, quando sair.

Muitos dos fanzineiros, que fizeram fanzines, e hoje gostam de se chamar independentes, fizeram quadrinhos de heróis. Eu mesmo me encaixo no perfil. Vejo em Penitente um excelente começo que, fosse jovem, gostaria de fazer parte – pois na revista nota-se claramente o vigor juvenil e a força da personagem. É o tipo de projeto que escreveria pro autor dizendo “sou desenhista e queria desenhar uma HQ do Penitente”.

Gostaria de ser jovem novamente.

Eu digo que os gaúchos são revoltados… A vingança.

Xeretando no blog do editor da Hangar, dei boas risadas quando noticiou que na verdade a votação do HQ Mix é aberta a todos pré-selecionados, não somente a lista dita principal. Agora ele está fazendo campanha para que votem na sua revista – nada mais justo. Ou não? Atento ao fato que este é o mesmo prêmio que ele pensava em preparar uma abaixo assinado ou uma discussão em algum fórum ou queimar a bandeira brasileira em protesto por não concordar com os selecionados escolhidos. Ok, Jerônimo. Agora está tudo bem – todos podem ser votados.

Lendo a entrevista do Jal, retornei à questão do Ângelo Agostini e até mesmo sobre o que escrevi do HQ Mix. Para ser votado em número suficiente para levar esta ou aquela premiação com base em voto popular – ou mesmo de jurados, seu autor tem que ralar muito. Tem que ser conhecido – correr prá todo lado atrás de divulgação, ter uma vasta produção espalhada prá caramba. Cartas, e-mails, telefonemas, apresentações, feiras, entrevistas e ainda achar tempo para produzir. Muitos contatos, muito trabalho. Estar sempre sorrindo. Tudo para ser lembrado, ser votado. Porra – vai querer se matar assim na conchinchina.

Pensando desta forma, eu acho mais que justo este tipo reconhecimento a um artista geralmente mal remunerado (quando ganha alguma coisa…) e desmerecido como é o caso do atuante na área de quadrinhos. Por este prisma, o Laudo mais que merece a premiação e todos aqueles que já ganharam o Agostini ou o HQ Mix. Não senhores, não peço que votem em mim. Dos meus três pontos apresentados cumpro todos: meus exemplares de 10 Centavos foram distribuídos a zineiros – a maioria, de minúsculo porte (optei por fazer assim); não houve divulgação maior do meu fanzine (também não quis me matar divulgando) e por fim o meu trabalho é uma merda (esta é mais por falta de opção) – exclua o Oggh desta. Há muitas – MUITAS, obras e artistas melhores do que eu ou minha revistinha. Não vou ser eu que vai defender comprometidamente que meu trabalho é o melhor simplesmente porque é meu.

É muito merecida a premiação ao Laudo – e todos os outros ganhadores. Também será todos àqueles que levarem o HQ Mix. Eles batalharam muito por isso e precisam deste reconhecimento – que pode ser uma forma de alavancar novos projetos, novos trabalhos e talvez até algum dinheiro. Aos vencedores, meu  mais sinceros (e por quê não um ‘pouquinho invejosos’ – posso ser invejoso mas não sou falso) parabéns. Os admiro e gostaria de estar em seu lugar. Que jogue a primeira pedra quem não aceitaria um prêmio destes. Hummm. Ok. Esquece o lance da pedra – que tal jogar uma HQ?

PS – queimar a bandeira brasileira é brincadeira, crianças. Nunca foi dada esta idéia.

Há espaço para ruins que nem eu?

O Quinto Mundo é fantástico. Mesmo eu sendo um pária, Cadu Simões (Homem-Grilo e Nova Hélade, que eu saiba) teve a paciência de responder uma mensagem minha. Sendo um bom leitor, você tem que saber sobre o Quarto Mundo.

Enquanto estou tentando descobrir de quem devo puxar saco, na campanha “o mercado precisa dos 90% ruins”, para entrar no referido grupo, o sr. Simões liberou o Informativo do Quarto Mundo #0. Bacana o informativo. Apresenta o manifesto (!) deles, de essencial leitura, além de um texto sobre o Ângelo Agostini e tiras.

Admito que fiquei admirado com as atitudes do sr. Worney Almeida de Souza apresentadas no informativo. Como disse já, o A. Agostini não é ruim, é apenas do público leitor – e se você deseja este tipo de destaque, é melhor correr atrás. Exatamente a proposta do Quarto Mundo. Muito bom. Cadê o #1?

Já não fiquei tão empolgado com sua resposta no fórum para que participar do grupo precisa “…ser convidado por alguém que já faz parte do coletivo.” Ok. É justo. Eles dão motivos muito coerentes a respeito… mas se por acaso se levarem ‘a sério demais’, onde vão ficar os 90% dos ruins? Ou o quarto Mundo surgiu para ser apenas ‘a nata’? Talvez. E – novamente, não há nada de errado nisso…. mas, isto contrapõe outro ponto exposto em seu… em seu… manifesto: “o que mais interessa para o Quarto Mundo…, como é o caso dos quadrinhos independentes, o que importa não é a quantidade, mas a variedade. Ou seja, mais vale termos 100 revistas com tiragem de mil exemplares do que uma única revista com tiragem de 100 mil.” Traduzindo: cuidem do perigo de se tornarem o clube do bolinha ou mudem o estatuto (Já disse que se chama manifesto! Manifesto!!!).

Para aproveitar o post, no site do Nova hélade, o sr. Simões esclarece que “A partir de agosto, acredito, já teremos a publicação das novas histórias.” Estou ancioso. Também pelo Informativo do Quarto Mundo #1 – online.

Em 1995…

…já existiam fanzines.

Já existia o (I)QI – de Edgard Guimarães. O Juvenatrix.

E – porra… existia uma porrada de coisas. Ok – não tinha internet, webcomics – HQs online, mas eu já dava minhas mal traçadas linhas. Elas pioraram, é verdade.

DE QUALQUER FORMA…

Taí um trabalho que fiz com Carlos Henrique e Mário Assis: Pandora.

Mais uma HQ gratuita (de grátis mesmo, como dizem), na faixa. “Pô, ‘cê achava que ia pagar por essa…” Ok. Ok. A vida – meu jovem menino, com diz o velho do saco, é uma caixinha de surpresas.

Muertos… vivos.

Voltando de férias. Da UTI seria mais correto, mas férias são sempre mais divertidas.

Bate papo

Amauri de Paula da Quadrinho.com fez uma entrevista comigo via e-mail. Nunca fui muito bom de conversar… já passei pela tortura de umas duas entrevistas ao vivo e é uma experiência que não recomendo a ninguém. Ambas situações fiquei minutos respondendo da mesma forma: hã… sim… hm… não. Um desastre. As perguntas do Amauri foram enviadas por e-mail e então foram bem mais fáceis para mim – gosto de imaginar que sou mais versátil e produtivo escrevendo, mas isso que vai dizer é você: acesse a entrevista aqui. Valeu ao Amauri e a Quadrinho.com pela divulgação e gentileza com que me tratou.

Fomos resenhados!

Dez Centavos ganhou uma crítica! O site Bigorna.net escreveu de forma bastante justa e gentil sobre o trabalho do Oggh que eu desenhei. Acesse o texto. Meus agradecimentos ao Bigorna e ao Matheus Moura pelo espaço.

Muertos

Postando Muertos. Página por página. No meu ritmo, termino ela antes de completar cinquenta anos.