Histórias em Quadrinhos • DS.art.br

Daniel Pereira dos Santos


A vingança dos derrotados!

Marko Adjaric, do Neorama dos Quadrinhos, mandou um link prá cá – especificamente para este texto. Êba!

Curiosamente, ele associou ao link o seguinte questionamento: colocar suas HQs online piora sua sensação de derrota?

Opa. Ambíguo.

Como um bom e velho telecurso 2000, vamos pensar um pouco. Ou melhor: olhar pro passado e no que temos hoje.

Sou do tempo de fanzines impressos em xerox. Yap. Iniciozinho da década de 90. Era um saco ter um zine. Não pelo zine, mas pela comunicação entre zineiros e interessados. Você pode até não acreditar, mas não existia internet na época. Toda comunicação era muito lenta e o alcance, muito limitado. Não fosse pelo trabalho incansável de Edgard Guimarães (cuja recompensa é impossível, tamanha grandiosidade e generosidade do seu esforço) com o Informativo de Quadrinhos Independentes, acredito que sequer existiria algo.

A saber: o IQI (posteriormente QI) é um fanzine (que existe até hoje) que divulga, gratuitamente, todas as edições (fanzines ou não) recebidas – do país inteiro. Não somente de HQs, vale lembrar. Isso há mais de dez anos. Edgard é o cara entre os caras.

Bom, onde quero chegar é que, na época, um fanzine de sucesso, alcançava uma venda de 50 exemplares (para outros fanzineiros obviamente). Ou seja: seu trabalho tinha um alcance a, no máximo, 300 pessoas. Claro que fanzines, feitos em (grandes) capitais com distribuição local, poderiam alcançar números muito, mas muito, mais expressivos. Mas fora do seu gueto não ‘vendiam’ nada. Comecei com o Informativo Perry Rhodan, junto ao meu irmão Alexandre e (segundo ele) o IPR teve seu ápice com 110 assinantes. Somos do interior do Rio Grande do sul, caso não saibas. Posteriormente tive meu zine de quadrinhos e, segundo me recordo, ele nunca obteve 30 compradores. TRINTA! E era bem bom.

Bom². Com a internet tudo mudou (sério?). A tecnologia chegou e temos hoje ‘revistas independentes’ com excelente acabamento gráfico e impressão de mil exemplares ou mais. Impressionante. Certo que muitas encalham, poucas esgotam e que sua venda é lenta que nem corrida de caramujo. Mas elas existem e crescem a cada dia. Mas interessante é perceber que HQs nacionais ‘profissionais’ (publicadas por editoras que fujam da temática humor/infantil) não possuem uma tiragem com expressividade muito maior. Apesar de estarmos numa ‘explosão’ da HQ nacional, inclusive com reimpressão de títulos (será que isso aconteceu antes nos últimos vinte anos?), as vendas destes livros de quadrinhos ainda é tímida. Mas estamos muito bem, acredito. Como jamais estivemos. A HQB caminha para as livrarias e temos de dar-nos por feliz em estar conquistando um nicho. O primeiro, talvez. Espero que não o último.

Ioqueco? Bom… aonde quero chegar é que publicar HQs na rede é um excelente negócio, se parar para pensar. Seja lá qual for sua finalidade – se divertir, profissionalizar-se etc, HQ online é uma oportunidade ao alcance de todos. Mesmo que você tenha 50 acessos por dia ou mês, comparativamente, você pode até ser mais lido (e conhecido) que muito autor publicado por editora. E um alcance impensável há pouco mais de uma década. O Quarto Mundo publica, religiosamente, uma página de HQ por dia e já deve ter (um chute no escuro – eu não tenho idéia) uns 2.000 visitantes ao dia – senão o dobro disso. Muertos, depois de um ano, já rendeu por aqui mais de duzentos mil visitas, com mais de meio mihão de páginas visitadas. Ou seja: mesmo que apenas 1% sejam visitantes únicos e tenham lido o trabalho, é uma exposição excelente ao seu material. Não é à toa que sites e blogs de HQ pipocam mais e mais a cada dia. E isso é ótimo. Seja na qualidade e finalidade que for. Os ‘melhores’ (que tiverem mais sinergia com o público) se destacarão, com certeza – mas espero que todos se divirtam!

Liçãozinha do dia: webcomics são um bom começo e podem render ótimos negócios. Já que estamos em um excelente momento editorial impresso, você pode aproveitar a rede para se mostrar ao mundo. Se um dia você pretende publicar ‘oficialmente’, não há lugar melhor para experimentar e ver reações dos leitores. Ainda que incerta e cheia de perigos, a rede permite retornos específicos e mensuráveis. E o contato com possíveis/prováveis leitores é muito mais próximo, rápido e barato do que em publicações impressas.

Se você quiser, faça-o sem medo.