Sábado dos Meus Amores
Não serei hipócrita: Sábado dos Meus Amores é para poucos.
Ou ainda mais honesto: tive dificuldade em ler este trabalho de Marcello Quintanilha (quando considero algo complexo, meu ego julga que a maioria também achará).
A começar pela arte. Vigorosa e minuciosamente pesquisada, Quintanilha me leva a um passado melancólico de cores difusas. O cuidado é recompensado, a representação é tamanha que me senti como se estivesse lá. E é justamente aí que considero uma obra ímpar em nossas terras. O autor tem um controle sobre seu trabalho que pouco se vê: cada personagem tem personalidade própria, cada história uma voz única. Raríssimo de se encontrar.
Todas as HQs possuem um recorte preciso, elegante e incômodo da realidade. Uma realidade que finje-se não existir. Seja em em lugares lúgubres comuns a grandes centros, seja na passagem de um circo por uma cidade qualquer ou ainda na mais distante praia esquecida pelo almejado temido ‘desenvolvimento’. Vejo até um certo humor no livro, que desdenha de nossas crendices, tolices e outros ices. Confronta a beleza da ingenuidade com o assombro da ignorância.
O conto que finaliza o livro resume bem estas dualidades: no mesmo ambiente há uma multidão em êxtase enquanto logo alí, ao lado, pode-se morrer por pequenos egoísmos e grandes intolerâncias. Sozinho em um descampado. A solução é correr à realidade, mesmo que medíocre – para salvar nossas vidas.
Guardei o livro na estante, aguardando pela próxima dose de realidade. Espero que eu esteja em forma para correr bastante.













