Histórias em Quadrinhos • DS.art.br

Daniel Pereira dos Santos

História de Ninar

4 exposições sagazes e comedidas

História de Ninar

Um conto de Jeffrey Whitmore
Adaptado para HQ online por Daniel Pereira dos Santos


Ao fazer histórias em quadrinhos…

eu sempre recordo de coisas que aprendi nestes anos. Seguem as coisas:

  1. Ninguém te obriga a fazer HQs.
  2. Não, você não terá o carro do ano nem beberá aquele bom uísque fazendo histórias em quadrinhos.
  3. Ninguém vira um gênio dos quadrinhos com apenas uma obra (a mídia e a crítica pode até dizer o contrário – mas dá meia década prá ver se o cara é lembrado).
  4. A única forma que conheço para aprender a fazer quadrinhos, é fazendo quadrinhos. E muitos.
  5. Cursos, técnicas e materiais não farão de você um grande quadrinhista.
  6. Ninguém consegue viver de quadrinhos no Brasil (feitos e publicados aqui). Ok, não me venham com a exceção – ela deve existir para confirmar a regra.
  7. Poucos vivem de HQ por mais que uns poucos anos (no mundo inteiro).
  8. Podem haver vários motivos para as HQs (produzidas e vendidas) no Brasil não frutificarem, mas na minha lista não constam nem editores nem leitores. Ou – se constarem, devem ter um peso mínimo ou perto do zero.
  9. Na verdade eu considero os maiores culpados os próprios autores.
  10. Não, não vou justificar este último ponto.
  11. As editoras não são o demônio, apenas querem o maior lucro possível com o menor custo alcançável. Como toda empresa que têm de pagar seus funcionários do próprio bolso. Em qualquer área.
  12. Ninguém é obrigado a gostar do seu trabalho.
  13. Nem as editoras, nem a crítica, nem os leitores são obrigados a falar (bem ou mal) de você. A única forma de ganhar (e manter) seu espaço é pelo seu trabalho. Não importa o que você fala ou pensa.
  14. Ninguém é obrigado a comprar seus fanzines/edições independentes/revistas.
  15. Os leitores compram o que gostam, o que consideram bom (nos seus mais diversos e subjetivos valores de “bom”).
  16. Ok. A distribuição/distribuídores no país é um baita pepino.
  17. O mercado de HQs existe – pode ser pequeno, mas ao olhar uma banca qualquer, os quadrinhos estão lá.
  18. Poucos trabalhos são tão demorados, complexos e desgastantes quanto fazer uma história em quadrinhos.
  19. Vá fazer medicina ou direito. E tenha o carro do ano e aquele bom uísque que você gosta.
  20. O desenho pode ser o corpo de uma HQ. E ele deve ser atraente para a proposta que se escolhe. O primeiro olhar que gera o interesse é o corpo. Mas antes de quadrinhos é história. E a história é a alma de uma HQ. E, na maioria das vezes, amamos e lembramos por toda uma vida da alma, não do corpo. Ok, adolescentes, esqueçam o que eu disse.

Ao recordar todos estes meus estimulantes (pre)conceitos, deixo o lápis de lado e vou ver TV, estudar, ler um livro. Qualquer coisa. Menos desenhar.

Ninguém me obriga a desenhar quadrinhos.

O fim

Acabei Muertos.

É realmente estranho quando as coisas terminam. Inevitável o sentimento de vazio. Poderia até escrever que bateu certa saudade, mas um gosto de coisa nenhuma toma minha boca.

Com certeza fora o trabalho mais difícil da minha vida. Fazer HQ é demorado e trabalhoso – não há dúvida, mas quando não se vive disso, é um passatempo prá lá de doloroso. Talvez fosse divertido quando não trabalhava e apenas desenhava minhas HQs. Tendo que me sustentar, tudo mudou de figura. Muita gente – que também não vive de HQ, diz que fazer quadrinhos é prazeroso e tal – não um sofrimento como exponho. Bom, estas mesmas pessoas fazem um projeto e desaparecem. Devem começar a pagar contas no final do mês, como eu. Não as censuro – eu acabarei por desaparecer também, creio.

Em pouco mais de dois meses, tive experiências incríveis. Alcancei mais visitas que nem mesmo meus mais fortes delírios poderiam imaginar, obtive uma porrada de contatos, entre e-mails e comentários. Cada um que divulgou, comentou ou escreveu sobre esta história em quadrinhos ficará sempre em minha lembrança. Muita gente legal que usou seu tempo para acompanhar a HQ, dando apoio e energia para que eu a terminasse. Eu os agradecerei sempre por isto – foi o que me fez concluir este trabalho.

Talvez para você esta é uma simples história em quadrinhos, não há nada de errado nisto – você está absolutamente correto, mas para mim não. Muertos para mim tem muito de particular, pessoal. Tenho extremo orgulho de tê-la feito e espero que Zanthos Aybrom tenha ficado satisfeito, ainda com tamanhas adaptações do seu conto e ilustrações questionáveis. Fazê-la foi uma tarefa hercúlea e sofrida que pensei jamais ser capaz de concluir.

Vai ficar marcada em mim.

Obrigado.