É viver
Decidi participar do Nossas Expressões. A saber: é um evento organizado pelo grêmio estudantil da universidade federal daqui – seu objetivo é apresentar a produção contemporânea da cultura local. Seria uma oportunidade a mais de, sacumé, exibição (no sentido egocêntrico de ser). Pensei imprimir Nada a Perder em um A3 e entregar à comissão, para que ela exponha onde ela quiser expor (parece que os trabalhos terão vários locais de exposição, cidade afora).
Fui no site, baixei a inscrição e comecei a preenchê-la. Beleza. Nome, endereço, e-mail etc. O último item tinha a seguinte pergunta:
Você faz seu trabalho pra quê? Pra quêm?
Intrigante. Fui ver o regulamento – lá estava esclarecido que o não preenchimento da questão anularia a inscrição. Deus do céu! Eu não sei quem elaborou essa questão mas devo meu parabéns a ela. Mais direto ao ponto impossível. Acredito que esse é o enigma da esfinge de quem produz.
Neste ritmo, tenho certeza absoluta, que a pergunta da próxima edição do Nossas Expressões será: qual é o sentido da vida?
INTERLÚDIO
Tenho uma mente fértil. Do tipo chão adubado com esterco de galinha.
Um dia eu e minha mente fértil fomos a um evento imaginário de quadrinhos. Lá tinham seus leitores imaginários, vendedores imaginários e autores imaginários. Por fim um autor (imaginário, é claro), se aproximou e perguntou:
- Tu é o cara de Santa Maria, certo? O do Muertos.
Sorri, com meu sorriso amarelo (eu fumo prá caramba) contumaz e confirmei, discretamente. Ele continuou, em nossa conversa imaginária:
- Então cara, estou lançando minha revista independente também. Tu vai ver que ela vai ser sucesso. Já tô bem conhecido no país e tô com em contato com várias editoras – vou ser o próximo autor nacional famoso. Tu tem que ver os desenhos irados que eu tô fazendo!
Minha mente fértil retrucou – em pensamento, é claro.
- Muertos é um fanzine impresso em gráfica – só isso. Que diabos é uma revista independente?
Ela continuou me atormentando:
- Sucesso? Que sucesso? HQ brasileira vende menos que pneu recauchutado. Ninguém lê essas porcarias – pega o exemplo daquele autor nacional famoso, ele nunca ganhou nada com isso. Apesar de ser muito bom, nunca vendeu mais que poucas centenas de edições. Aliás – alguém no Brasil já ganhou algum dinheiro com histórias em quadrinhos?
Quando pensei que minha mente fértil ia me deixar em paz, ela arrematou:
- Desenhos irados? Porra! E a droga da história?
Olhei para o autor imaginário ao meu lado e retruquei:
- Com certeza. Vejo que você já tem tudo planejado.
E fui andar à volta. Minutos depois um segundo autor imaginário se aproximou de mim. Este era um autor nacional imaginário famoso, um grandão da atualidade. Perguntou:
- Tu é o cara do Muertos?
Respondi que não. Que eu sequer existia – que era fruto da imaginação dele – e fui embora.
Olhando prá trás percebi que muitos amadores, como eu, se (auto) elegem como a esperança do país, na (futura) produção nacional de quadrinhos. Pior: muita gente aposta neles. Que o Criador nos proteja se isso se tornar realidade.
FIM DO INTERLÚDIO
Como Édipo meia boca, respondi à desafiadora questão:
Sou apenas mais um que conta histórias. Para quem quiser ouvir.
Mas era mentira. Até hoje não sei porque eu faço o que eu faço. Ou prá quem (meus prá sempre têm acento). Ego é uma resposta óbvia e não me satisfaz. Enquanto não sei porquê, continuo fazendo.
Mas já estou pronto para responder, na ponta da língua, a pergunta seguinte – ano que vem.













