Histórias em Quadrinhos • DS.art.br

Silêncio, por favor.


Desleal

Eu particularmente me sinto mal ao pintar meus quadrinhos. É loucura minha, eu sei, eu sei.

Não adianta. Cor muda tudo. Acho meio esquisito. Com certeza a imensa maioria discorda, eu sei, eu sei.

Abrace-me

Ao menos tenho uma ou outra página minha em PB para aprender a colorir.

Ahn… esta página é a desta HQ.

Portão 6

Portão 6

Só pode ser praga. E é com o Oggh! Eu sempre travo num texto dele (foi a mesma coisa com esse aqui)! Terceira versão da mesma página. Vamos ver se eu me agrado dessa vez – em 10 Centavos a terceira versão é a que foi impressa. De repente tem a ver com a 3ª vez que eu faço a mesma coisa… Bueno. Nessa aqui fui prum lado mais de ilustração para literatura infantil. Tava planejando isso puma HQ futura, mas depois das conversas com Gus Morais decidi aplicá-la aqui. O negócio é virar ilustrador de livro infantil! Bueno. Até daqui um mês. Espero que já com a segunda página. E que eu não leve seis anos para terminar esta história em quadrinhos…

Acompanhe as atualizações destes quadrinhos por aqui.

Matriz • Preâmbulo

Tenho um monstro na minha frente. Ele me encara há meio ano, quieto e ameaçador como qualquer monstro realmente perigoso. Esperando pelo bote certeiro. Fatal.

Não tenho como fugir dele.

O monstro é obviamente uma história. Um conto escrito pela minha mãe, a meu pedido.

Sem entrar em detalhes, o conto usa como alicerce uma passagem da (nossa) história brasileira.

Apesar de tê-lo solicitado, não gosto de HQs que usam este artifício: história (do Brasil). Os resultados pelos quais cruzei são enfadonhos, na imensa maioria. É difícil ser imparcial. É difícil ser universal.

Quadrinhos brasileiros que li, quando utilizam fundamentos históricos, tendem a ser panfletários. Desta ideologia ou daquele grupo. Imprecisos e enganadores, apresentam-se através de um recorte parcial – de uma leitura pessoal que se deseja difundir, como se fossem o definitivo – o passado. Vestindo a intimidadora pele de aconteceu assim, é verdade, isso é história, acabam por levar seus leitores ao erro, à ignorância – que será perpetrada por estes. Esta mentira, ou no máximo uma realidade selecionada, é um perigo. Uma recrutadora de mais pequenas verdades e grandes mentiras. Pior ainda são histórias em quadrinhos didáticas – neutras e superficiais. Chatas. Tem muito disso sendo produzido no país – de olho nas licitações e compras do governo. Pobre país… o que fazemos (ou deixamos fazer) dele! Sem falar nos quadrinhos, que podem ficar estigmatizados como suporte narrativo leviano – tolo e raso, pelas novas gerações de leitores surgidos das escolas.

Outro grande perigo é o bairrismo. Ou regionalismo, para ser politicamente correto. Não me identifico com quadrinhos de cangaceiros, por exemplo. Não em sua maioria. E acredito que o pessoal do norte e nordeste não deva se identificar com os pampas gaúchos, também. Acho muito chato essas HQs pregadoras de que o país é a Amazônia ou a Caatinga. O brasileiro é cordial entre si, mas não vejo em nós uma identidade unificadora muito maior que nossa língua. Elencar uma parte do país para contar uma história em quadrinhos é se isolar do todo. De nós mesmos.

Um trabalho que considero ímpar neste sentido é Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil. Claro que a história é mais urbana, mais contemporânea e isso ajuda. Mas vejo uma neutralidade invejável considerando tudo que escrevi: o livro não pesou mais para este lado (político) ou aquele. Não caiu na armadilha de ser regional (e podia muito bem ter sido). E se não fora perfeitamente preciso é porque se preocupou em contar os dramas de suas personagens. E não contar a história da história (…). É um bom modelo para se iniciar um trabalho que tem como estopim o nosso passado.

O conto está ali. Parado. Tenho medo de enfrentá-lo, pois facilmente ele me engoliria.

Paguem pelos quadrinhos nacionais!

Marcus Ramone, do Universo HQ, escreveu um texto a respeito da realidade dos quadrinhos brasileiros. Achei legal o texto. Como ele mesmo escreveu, seu artigo não ambicionou cobrir todos os pontos relativos ao tema – o que seria não impraticável, mas muito longo e demasiadamente chato.

O que, obviamente, eu adoro ser: verborrágico e inconveniente. Como (infelizmente) não tenho âmbitos de ser cool ou comercial (até porque não existe âmbito comercial nestas bandas e ser cool é muito chato) e se tem um site na internet prá escrever abobrinhas, pego minhas pedras do chão.

Interessou-me que, lendo seu texto, não fora levantado um questionamento que considero relevante: por que “o que se vê é muito, muito trabalho ruim“? A partir deste questionamento decidi escrever este ‘pequeno’ texto.

Antes de mais nada, vou expor alguns pre(con)ceitos:

  1. Este texto desconsidera obras infantis e de humor. Na prática, estas são os únicos trabalhos remunerados em nosso país (charges/cartuns, tirinhas e até quadrinhos nesta temática) – porque são os que vendem. Quem geram interesse do público leitor. Quer viver de HQ no Brasil? Beleza. É bom que seu trabalho se enquadre nessas áreas.
  2. Há sim um preconceito por parte do leitor por material brasileiro – e pertinente: ele normalmente possui qualidade questionável. Mas o leitor brasileiro de HQ não possui resistência alguma a um bom trabalho (no estilo/temática que ele está acostumado a ler), seja a nacionalidade que for. O difícil talvez seja os parcos bons trabalhos (autorais, independentes, amadores etc.) nacionais encontrarem o leitor de determinado segmento. As tiragens são irrisórias, a distribuição é uma caca. E pode ser uma ótima HQ com elfos, mas se o cara curtir super-herói, é bem provável que não vai curtir anõezinhos de jardim – e vice-versa em seus diversos estilos e temas. Some isso tudo ao preço de livros de quadrinhos, absolutamente fora da realidade brasileira, que já se percebe o tamanho do problema.
  3. As editoras são empresas. Empresas objetivam auferir lucro. É um negócio, ora bolas, não uma missão religiosa! As vendas e o mercado nacional de gibis são pequenos, muito pequenos. Está dentro do ridículo, considerando o tamanho continental de nosso país. Pegue as maiores vendas (talvez um pouco acima de vinte mil cópias), versus a quantidade de revistas (que possuem a imensa tiragem de cinco mil cópias) e verá que a média é horripilante. Livros de HQ possuem tiragem menor ainda. E vendem ainda mais lentamente. É nessa realidade que as empresas têm que pagar seus funcionários e tirar o seu. É mais negócio pagar por uma obra de fora, já aprovada em mercados estrangeiros sólidos, que geram vários contratos paralelos, do que pagar mais caro por um autor nacional (sim, é mais barato comprar trabalhos de fora) desconhecido e sem merchandising algum.
  4. O objetivo aqui é falar de obras nacionais, publicadas aqui – seja fanzine, independente, livros etc. O que tenho visto da opinião do leitor na internet é que um cara que quiser viver de quadrinhos, deve ser desenhista da Marvel, da DC, Image etc. Não um contador de histórias, utilizando como suporte a narrativa dos quadrinhos. Não. Ele deve objetivar desenhar para fora do país. “É estupidez querer ficar aqui”. E pior que está coberto de razão. O que levanta outro ponto: o leitor lê (e paga) sem preconceito material estrangeiro, mas estranha um brasileiro querer publicar… bem… no Brasil – e viver disso… em seu próprio país!!! Contar suas histórias aos seus. Incrível o (leitor) brasileiro não exigir (você leu certo) produção própria. Na verdade isso fala muito sobre o que somos, mas OK – não é o objetivo desse texto também.

Primeiramente esclareço que o ofício de quadrinhos é moroso. Muito trabalhoso, muito demorado. Não confunda com ‘apenas desenhar’. Não estou falando de fazer páginas e mais páginas de gente se enchendo de porrada ou parecendo ser gostosa para se alcançar uma cópia técnica do desenhista sensação do momento. Falo de contar histórias, bem contadas. Isso demanda tempo. Experiência. Um autor nacional, com cinco, dez anos de ‘carreira’, tem o quê? Cinquenta páginas produzidas? Talvez cem. Em quanto tempo se consegue isso num mercado consolidado e remunerado que tanto amam comparar? Um mês? Quatro meses? Por que o autor nacional tem um portfólio tão pequeno? Porque o brasileiro é vagabundo?

Todo mundo se acha um Neil Gaiman (mais a frente vou retomar esta que nossos escritores são ruins) ou aquele baita desenhista. Entretanto da concepção à produção, percebe-se que as ideias não são tão bem lapidadas: o trabalho final sempre fica aquém da expectativa inicial. Somente com o exercício interrupto que nossa criatividade se molda perto da realidade, do resultado. Senhores: isso em qualquer área da produção humana. Acontece que lá, em mercados normalmente comparados ao nosso, produzir quadrinhos é profissão. Então o jovem mancebo quadrinhista busca aperfeiçoamento para poder viver disso, vencer a concorrência, ter seu lugar ao Sol. E aí ele produz, por muito tempo, com muito tempo – isso porque sabe que pode ser recompensado por isso. Aqui, não. Nem os caras que têm editora por trás recebem algo que os sustente. Então chega um momento na vida (em nosso país pobre), que o autor tem de buscar seu sustento, seu ganha-pão para pagar as contas. E os quadrinhos ficam em segundo plano. Um hobby. Quando dá, do jeito que dá. Tenha isso em mente: quando dá, do jeito que dá. Nada de quantidade nem continuidade. E lá se vai, esgoto abaixo, a possibilidade de aprimoramento (autocrítica) e amadurecimento da produção por parte do autor. Ressalto: é hobby por falta de perspectiva, não por opção. Tem gente que não admite isso – que o que fazemos por aqui é hobby. Chegam ao ponto de afirmar que se isso fosse verdade, não faríamos sites/blogs/fotologs por diversão, mostrando nosso (duvidoso) trabalho. Bom… não é necessário ter muito mais que um neurônio para perceber que, se isso fosse verdade, não existiriam 99,99% dos blogs na internet. Ou sites pessoais de artesanato e crochê (prá citar algo que MUITA gente faz). Espaços de paixões particulares. Para quem quiser ver.

Incrível também como isso normalmente não é aceito por muitos leitores de quadrinhos: que só existe bons e contínuos trabalhos (em quantidade satisfatória), porque há mercado. Porque se paga por bons trabalhos. Se existe profissionalismo é porque… bem, se retribui por ele. Para cobrar algo você tem que pagar por isso. Em qualquer área, em qualquer profissão. Como qualquer emprego. Pense em qualquer produto/serviço que é bom. Porque ele é assim? Porque existe mercado – há grana envolvida, e assim, a competição para se conseguir a maior fatia possível dessa bufunfa. Alguns já citaram que mesmo o mercado estrangeiro teve um início difícil e tal. Mas para ter uma noção da diferença de realidades, o que se pagava há cinquenta anos, nestes trabalhos primevos lá fora, é até mais do que se paga hoje, a um autor nacional. Feia a coisa. Escrevem que quem é bom, é bom de qualquer jeito – e é fato: temos excelentes obras onde seus autores não tiveram remuneração, mas são esparsas e praticamente desconhecidas. Já toda a obra estrangeira que um leitor pôs a mão foi remunerada. Então me pergunto contra o que há a comparação, se ela não é válida?

Mas… peraí – quer dizer que todo o quadrinhista que faz alguma coisa neste país é (perdeu) prayboy? Ah, sim – escrevi errado de propósito. A resposta é simples: não. Os álbuns que atualmente têm sido publicados em nosso país têm sido um esforço inacreditável de seus criadores. Sem serem igualmente remunerados. Eu nem arrisco mensurar o que tiveram de abdicar pela sua paixão. Mas sei seu seus nomes. E os respeito. Mais até: os venero. Mas é isso: estamos destinados a poucos e desconhecidos heróis solitários. Ok – já li muito que na Europa é parecido, mas… bem… a Europa possui estabilidade financeira melhor, caso não saiba. Lá, há muito mais gente que se pode dar ao luxo disso. No Brasil, não. Repito: no Brasil, absurdamente, infelizmente, não. E aí acabam os sonhos de 99% dos jovens quadrinhistas nacionais.

Interlúdio
Aproveitando esta questão de que quadrinhistas que continuam a produzir possuem condição econômica estável…
É engraçado como no Brasil ter grana é motivo de vergonha e escárnio. Quer dizer… todos querem ter dinheiro, mas desfazem, invejam e atacam quem já o tem… somos todos muito, muito engraçados.
Fim do interlúdio

Lamentável que, com 50 anos de HQ (é mais, eu sei) sempre recorremos aos mesmos, em uma discussão. Tipo… quantas HQs são publicadas mensalmente nos EUA? Cem? Trezentas? Seiscentas revistas? Quantos artistas estão envolvidos nestas edições hoje em dia? E nas produções dos últimos… há… cinco anos? Dez? Vinte anos? Mas, bacanas que somos, recorremos às exceções daqueles cinco ou seis nomes sempre citados como brilhantes autores de quadrinhos. Com uma monstruosa e interrupta produção destas, em meio século, surgiram cinco ou dez nomes ‘indiscutíveis’. Porque então esperar do Brasil um grande roteirista se, em mercados muito maiores, mal e mal se consegue um ou outro? A produção (em quantidade) em um mês nos EUA é maior do que é publicado em dez anos, por aqui. Sinceramente não entendo.

Até escrevem por aí que Moore seria Moore mesmo sem ganhar. Bom, meus queridos Nostradamus de plantão, eu não sei se seria feito algo que merecesse destaque em nosso país, se os artistas daqui fossem remunerados. Neste texto ensaio do porquê não existir muita coisa pela qual o leitor chore de prazer ao lê-las. Mas assim como é fato que não fizemos algo que tenha parado o planeta, tudo que tenha o feito (parado o planeta, cabeção), fora criado através de (boa e contínua) remuneração. N E N H U M trabalho que você citar, fugirá disso. Se Moore seria Moore sem ser pago? Eu sei lá – isso nunca aconteceu. Se você é tão certeiro em previsões do futuro (SE isso, SE aquilo), não perca seu tempo: aposte na mega sena e seja feliz.

Resumindo – coisa que devia ter feito desde o início: não haverá uma quantidade ou continuidade de trabalhos (considerados bons?), que satisfaça a grande parcela de leitores, enquanto não houver remuneração (segura) para seus autores (nacionais). E não teremos isto porque a venda de HQs nacionais (e gibis como um todo) beiram o inacreditável, de tão pequenas. Estamos, muito provavelmente, na melhor fase de todos os tempos em publicação de obras nacionais por editoras – livros. Aproveitemos isto! Mas deve-se ter em mente que excelentes autores nacionais (publicados por por editora) têm tiragem de mil a três mil exemplares e… encalham! Para termos bons trabalhos, ficamos na dependência de quadrinhistas em condição financeira favorável (ou tempo disponível), qualificação artística eficiente e uma paixão ardente. Complicado. Raro. E isso não se limita a quadrinhos e sim a boa parcela de áreas e profissões por aqui – mas especialmente aquelas ligadas à cultura e entretenimento. Apenas um reflexo da pobreza de nosso país.

Mas o panorama é favorável (como nunca foi antes) e espero que frutifique cada vez mais com trabalhos ainda melhores. Se vai colar? Prá onde vamos? Não tenho nenhuma ideia.  Sou apenas um mané que trabalha. Não com quadrinhos, obviamente. Isso porque HQ não paga as minhas contas vencidas.

Lamentavelmente.

Mas curto fazer meus quadrinhos lá de vez em quando e colocá-los na web.

Felizmente.

Menos do mesmo

A vida anda meio estranha e o tempo escasso. Nem comento da minha paciência. Por isso a bagaça anda abandonada por aqui. Mas minha vontade de contar histórias (em quadrinhos) continua alta. Ao contrário de ficar chorando as pitangas, estou buscando alternativas para continuar… narrando visualmente. O jeito era desenhar mais rápido… ou desenhar menos. Optei por rascunhar alguns quadrinhos com o mínimo de recursos ‘ilustrativos’ (entenda-se linhas) possíveis… mas ficou… tosco. Solução?

Cor.

Eu sempre colori uma ou outra página das histórias em quadrinhos que ajudei a produzir. Mas nunca me agradei do resultado, então nunca os postei. É difícl eu me agradar. Não me refiro aos outros. A mim mesmo. Mas admito que a cor dá um charme todo especial à criança. Ela, a cor, salva muitos trabalhos ruins (como os meus). Um exemplo do que falo está abaixo – testes com Nada a Perder que nunca passaram disso: testes.

Abaixo outra experimentação, utilizando o mínimo de risquinhos. E apelando para que a colorização me salvasse. Não salvou. Então fui prá outro estilo. Você pode verificar o resultado que adotei presta nova HQ – Um Imbecil Decididoassinando os feeds, se você se interessar em acompanhá-la.

E viva o Photoshop.

Pelo direito de ser amador

Uma febre recente que se espalha por orkuts, twitters, blogs e fóruns internet afora é a de falar mal do quadrinho nacional. Até sites especializados começam a destilar um pouco sobre o assunto. É até compreensível. Ultimamente tem havido uma avalanche de publicações nacionais e de sites com seus criadores pedindo por um pouco de atenção. Nada mais nornal que uma reação a isso.

Malham mesmo. Com fervor e sem pudor. Então é o caso de ir às bancas para avaliar se as HQs são tão ruins quanto comentadas.

Epa.

Não existe NENHUMA publicação brasileira (que não seja humor ou infantil) em bancas. Então, peraí… o que estão tão fervorosamente criticando ?

Fanzines. Ou os atualmente ditos ‘independentes’. Publicações sem âmbitos profissionais e comerciais. Sério. A que ponto chegamos.

Suas justificativas são semelhantes (assim como os insultos gratuitos): o de melhorar o cenário nacional. Que cenário? Sinceramente me pergunto como podem chegar a tal conclusão detonando o trabalho alheio da forma que o fazem. Obviamente é somente para chamar atenção “me leiam, eu existo”. Outro ponto engraçado que merece registro é que estes ‘criticos’ nunca falam das obras publicadas no Brasil – os livros de quadrinhos. Provavelmente por medo de ir contra peixe grande, as editoras (normalmente quem critica também quer publicar e não corre o risco de se queimar).

Escrevem de tudo: que seus autores são responsáveis pela inexistência de mercado, que não aceitam críticas, que seus trabalhos são porcos, não buscam aperfeiçoamento, que falta originalidade, que são covardes… ou seja, tudo o que se esperar de um profissional.

Esclareço: um profissional é aquele que possui ofício rotineiro e é remunerado para isso. Já o amador, faz… por paixão. Por gostar tanto de HQ que, nas horas vagas (sim, porque ele não ganha um centavo com isso – ele tem outro emprego para se sustentar), produz seu desenhinho, seus quadrinhos. É um passatempo. Um hobby. Faz quando pode, do melhor jeito que dá.

Mas até disso reclamam: que hoje todo mundo faz quadrinhos no Brasil por hobby. Novamente, nada mais esperado: ninguém ganha porcaria nenhuma fazendo HQ por estas bandas – esperar o que? Uma enxurrada de trabalhos com qualidade ímpar? Eu fico tão puto com tamanha falta de discernimento (e educação) que até criei um resumão:

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…esquecem que os criticados são fanzines!!! Revistas sem finalidades comerciais que não ambicionam mais que a diversão de seus autores! Não vêem diferença alguma numa revista impressa no fundo do quintal com um gibi do Batman!!!

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…esquecem que NÃO EXISTEM revistas profissionais em bancas para serem criticadas! No máximo livros de quadrinhos que objetivam narrativas mais autorais.

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…comparam obras internacionais, bem remuneradas a autores nacionais que jamais são pagos (por editoras!) e que, por isso, não têm como se sustentar de HQ e se aprimorar no ofício dos quadrinhos.

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…pedem qualificação do artista, quando na verdade, são necessários meses/anos de exercício diário para isso – e para que? Vai trabalhar aonde? Prá ganhar quanto? Por quanto tempo? Vai viver de quê neste período de exercício?

O Brasil é um país tão coitado, mas tão coitado que…
…os críticos são OUTROS FANZINEIROS FRUSTRADOS, que possuem um trabalho absolutamente sem relevância como o dos criticados. E que fazem exatamente tudo que falam para não fazerem.

Normalmente quem faz curso de desenho, se aperfeiçoa, ambiciona trabalhar no exterior – raro são os que possuem tempo/grana para isso e ficam por aqui, produzindo seus trabalhos, sem ganhar nada. Por amor. Ou seja: eles não produzem fanzines nem HQs – fazem desenho, querem viver disso e como ninguém paga nada por aqui, vão trabalhar fora. Estamos num país muito, muito podre – é natural esta escolha. Acho que alguns leitores de histórias em quadrinhos (hoje, um produto de luxo, para poucos) acham que estão no primeiro mundo, onde todo mundo pode pagar as contas fazendo o que quer.

Claro que todos gostariam de publicar. Todos querem ser elogiados, premiados e reconhecidos. Suas histórias e desenhos são suas paixões. Em que mundo esses detratores vivem? Não no humano, com certeza.

Gosto de jogar futebol nas quartas-feiras, depois do trabalho. Tenho a obrigação de me tornar um profissional por causa disso? Ou parar de jogar com os amigos porque não sou tão bom ou não desejo me tornar um profissional?

Já tiraram qualquer possibilidade de um autor nacional se sustentar com quadrinhos neste país. Não deixe que tirem também o prazer de podermos ao menos brincar um pouco com as HQs.

Viva la résistance!

Brazil

Eu me controlo para não tornar este site algo como um Twitter – não fugir do tema de quadrinhos (nacionais) ou mesmo (fazer) pequenas divagações.

Eu não curto super-heróis. Não os leio há… mais de quanto? 10, 15 anos?

Herói brasileiro nunca colou.

A HQ (nacional) de terror (horror?) naufragou há muito tempo.

Sou apenas uma mané amador.

Hm.

Definitivamente eu não devo tornar este site algo vago e viajante como meu Twitter.

É viver

Decidi participar do Nossas Expressões. A saber: é um evento organizado pelo grêmio estudantil da universidade federal daqui – seu objetivo é apresentar a produção contemporânea da cultura local. Seria uma oportunidade a mais de, sacumé, exibição (no sentido egocêntrico de ser). Pensei imprimir Nada a Perder em um A3 e entregar à comissão, para que ela exponha onde ela quiser expor (parece que os trabalhos terão vários locais de exposição, cidade afora).

Fui no site, baixei a inscrição e comecei a preenchê-la. Beleza. Nome, endereço, e-mail etc. O último item tinha a seguinte pergunta:

Você faz seu trabalho pra quê? Pra quêm?

Intrigante. Fui ver o regulamento – lá estava esclarecido que o não preenchimento da questão anularia a inscrição. Deus do céu! Eu não sei quem elaborou essa questão mas devo meu parabéns a ela. Mais direto ao ponto impossível. Acredito que esse é o enigma da esfinge de quem produz.

Neste ritmo, tenho certeza absoluta, que a pergunta da próxima edição do Nossas Expressões será: qual é o sentido da vida?

INTERLÚDIO

Tenho uma mente fértil. Do tipo chão adubado com esterco de galinha.

Um dia eu e minha mente fértil fomos a um evento imaginário de quadrinhos. Lá tinham seus leitores imaginários, vendedores imaginários e autores imaginários. Por fim um autor (imaginário, é claro), se aproximou e perguntou:

- Tu é o cara de Santa Maria, certo? O do Muertos.

Sorri, com meu sorriso amarelo (eu fumo prá caramba) contumaz e confirmei, discretamente. Ele continuou, em nossa conversa imaginária:

- Então cara, estou lançando minha revista independente também. Tu vai ver que ela vai ser sucesso. Já tô bem conhecido no país e tô com em contato com várias editoras – vou ser o próximo autor nacional famoso. Tu tem que ver os desenhos irados que eu tô fazendo!

Minha mente fértil retrucou – em pensamento, é claro.

- Muertos é um fanzine impresso em gráfica – só isso. Que diabos é uma revista independente?

Ela continuou me atormentando:

- Sucesso? Que sucesso? HQ brasileira vende menos que pneu recauchutado. Ninguém lê essas porcarias – pega o exemplo daquele autor nacional famoso, ele nunca ganhou nada com isso. Apesar de ser muito bom, nunca vendeu mais que poucas centenas de edições. Aliás – alguém no Brasil já ganhou algum dinheiro com histórias em quadrinhos?

Quando pensei que minha mente fértil ia me deixar em paz, ela arrematou:

- Desenhos irados? Porra! E a droga da história?

Olhei para o autor imaginário ao meu lado e retruquei:

- Com certeza. Vejo que você já tem tudo planejado.

E fui andar à volta. Minutos depois um segundo autor imaginário se aproximou de mim. Este era um autor nacional imaginário famoso, um grandão da atualidade. Perguntou:

- Tu é o cara do Muertos?

Respondi que não. Que eu sequer existia – que era fruto da imaginação dele – e fui embora.

Olhando prá trás percebi que muitos amadores, como eu, se (auto) elegem como a esperança do país, na (futura) produção nacional de quadrinhos. Pior: muita gente aposta neles. Que o Criador nos proteja se isso se tornar realidade.

FIM DO INTERLÚDIO

Como Édipo meia boca, respondi à desafiadora questão:

Sou apenas mais um que conta histórias. Para quem quiser ouvir.

Mas era mentira. Até hoje não sei porque eu faço o que eu faço. Ou prá quem (meus prá sempre têm  acento). Ego é uma resposta óbvia e não me satisfaz. Enquanto não sei porquê, continuo fazendo.

Mas já estou pronto para responder, na ponta da língua, a pergunta seguinte – ano que vem.

Sem achismos sobre o quadrinho nacional

Já que o pessoal que curte HQ não lê mais que um parágrafo de texto, vou aproveitar e xingar todo o universo. Todo mundo curte um bafafá e este tipo de coisa dá ibope (no caso, acessos). Alguém mais atento pode perceber que o xingamento é como atirar pedra no telhado do vizinho, tendo seu próprio telhado de vidro. Mas eu vejo que é mais como cuspir prá cima.

  1. O quadrinhista nacional adora chorar pela falta de retorno, de reconhecimento. Realmente, é uma linha de raciocínio engraçada.
  2. Não há reconhecimento, porque não há público interessado. Se não há leitor, então não há mercado. Havendo mercado, haveria dinheiro, que move a bagaça, que interessa a todos (viver de quadrinhos, se você está confuso), que cria a competição e que por, fim também gera reconhecimento.
  3. Dos melhores, é claro.
  4. Por que não há público leitor interessado? Bom é porque as histórias em quadrinhos nacionais ou são muito ruins ou não objetivam o leitor médio, a maioria. Escolha o que seu ego deixar.
  5. Há a desculpa da distribuição também, se você quiser. Mas com internet hoje em dia… onde o que gera interesse, queima feito rastilho de pólvora… Você vai precisar de um ego muito bem treinado para se enganar desta forma.
  6. Ah, sim. A desculpa dos enlatados inundando as bancas, não cola mais. Lamento.
  7. Cada vez sê lê menos? Fato. Cada vez se lê menos em suportes e mídias tradicionais? É uma tendência.
  8. A desculpa de ter que trabalhar para se sustentar e não poder se dedicar aos quadrinhos é por demais válida.
  9. Só não me vem chorando depois que ninguém tem interesse pelo seu parco trabalho.
  10. É dá ou desce.
  11. Suspeito que a maior parte dos autores nacionais que tiveram destaque nestes dez anos passados, viviam com os pais ou alguém os sustentava, de alguma forma. Sem problemas – eu queria estar nesta fatia!
  12. Como não existe mercado, não há salários e produção contínua, nem amadurecimento por parte do autor. Sem amadurecimento, a obra do cara não cresce em leitores.
  13. Baita círculo vicioso.
  14. Complicadíssimo sair dele – mais fácil é se iludir e se achar um Frank Miller ou um desenhista qualquer que você curte.
  15. Mas no mundo real, quem decide isso são os leitores – não aqueles seus dez amigos, não você. Se você não tem leitores suficientes… Well. Ficamos restritos a autores apaixonados/amadores que não pensam seu trabalho de forma mais comercial (até porque ela não existe). Quem vai culpá-los?
  16. Para crescer como autor, a coisa vai ter que ser por amor. Por um bom tempo. Até achar o caminho: leitores. Lamento.
  17. Amar é não pedir nada em troca. Muito menos reconhecimento.
  18. O álbum de histórias em quadrinhos brasileiras que mais vendeu nos últimos anos deve ter alcançado, uns dois mil exemplares. O autor deve ter ganho entre 8 e 12 mil reais. Há quem diga que mal vendeu quinhentos exemplares. E até me destilaram que ele topou publicar de graça (espero sinceramente que não seja verdade)!
  19. É um trabalho de um ano ou mais. É normal um trabalho destes, no Brasil, levar três anos de produção. Alguns demoram até cinco anos.
  20. Agora pegue o que ele ganhou e divida pelo tempo de trabalho. É. Qualquer desenhista razoável ganha mais que isso em uma agência de publicidade, escritório de design ou produtora de vídeo. Mesmo as furrecas. E por mais escravizado que ele seja nestes lugares, é menos trabalho que um projeto destes. Claro, não estou escrevendo agora sobre realização pessoal.
  21. Na última década não devem ter havido cinco autores nacionais que alcançaram metade deste marco – em vendas e valores. Estou desconsiderando, obviamente, obras infantis/humorísticas e vendas para o Estado.
  22. O(s) autor(es) que consegue lançar um livro, o faz(em) por interesse próprio – está a fim de contar as histórias deles, não aquelas que seriam assimiladas por uma grande massa. Não vejo absolutamente nada de errado nisso. Eu mesmo queria poder fazer isso.
  23. Histórias autorais são nichos, uma parcela que existe dentro dos tipos existentes de quadrinhos. Cada um objetiva o que quer. E tem o retorno que merece. O interessante é que trabalhos autorais são normalmente uma minoria, dentro do universo/mercado de publicações nos quadrinhos – mas no Brasil são a supremacia atual do que é publicado, quando se refere a autores nacionais. Ah, sim. Não existe mercado, então estamos apostando na elite que compra quadrinhos. O que acho um bom negócio, não extamente uma boa idéia.
  24. Culpa das editoras? O investimento para lançar um autor brasileiro nacionalmente é muito maior que comprar quadrinhos estrangeiros. E com muito mais riscos. Vocês comprariam um gibi do Alan Moore, Grant Morrison ou do Daniel Mané?
  25. Claro que há politicagem na publicação e em editoras. Em que mundo você vive? Existe politicagem até na compra e venda de carnes, pro açougue mais fuleiro. Você não vai fugir dela, em nenhuma área. Mas com um trabalho acima da média, você fura a politicagem.
  26. As editoras são livres para fazerem o que quiserem – vivemos em um estado capitalista, se você ainda não percebeu.
  27. A saber (tem muita gente que nem faz idéia do que é o capitalismo), este regime basicamente permite que você trabalhe no que quiser, ganhe o quanto puder e gaste esta grana no que der na telha. Obviamente, há leis que gerenciam e limitam esse monstro, como em qualquer regime – então não seja mala. Injusto? Com certeza – tudo feito pelo homem é. Mas prefiro este regime a um que limita no que você pode trabalhar, até quanto vai ganhar e não deixar gastar no que quiser.
  28. Então depende de você, e apenas de você, correr atrás do prejuízo. Você quer? É contigo – corre atrás. Chorar, lamento, não adianta. Não vão te dar (ou comprar) teu gibizinho, só porque você quer. Ninguém se interessa por choradeira – agora, por um trabalho bem feito, é possível. Quem decide o que é bom, pode até ser você – mas quem paga pelo seu trabalho é o leitor, então… bom, deixa prá lá.
  29. Agora, se você quer imprimir (ou participar de) um gibi e ninguém está interessado em bancar, por menor que seja o valor ou a tiragem, não existe a possibilidade do trabalho… não for bom? Enviei Muertos a umas três editoras – nenhuma se interessou. Gosto de pensar que o desenho não estava a altura da história, mas resigno-me ao fato que meu trabalho não teria boa aceitação – não venderia o suficiente para valer a pena.
  30. Incrível também como o quadrinhista brasileiro acha que o caminho é conseguir verba pública.
  31. Quer dizer… pode até ser – prever o futuro é estupidez. Acho bem legal o Estado colocar HQs na escolas, como meio narrativo ou ainda, educacional.
  32. Mas me pergunto: se não há interesse por parte da iniciativa privada (entenda-se: de uns poucos) colocar dinheiro em um projeto destes porque não há público, mercado etc e não haveria retorno, por quê seria correto torrar grana da união (entenda-se: de todo mundo) em algo assim?
  33. Há quanto tempo isso é feito no cinema nacional mesmo? Quantos destes projetos se pagaram?
  34. Ah! Aquele projeto se pagou? Então não precisa de verba pública, ora bolas!!!
  35. Aindassim, a desculpa de ajudar, de ser uma iniciativa, é válida.
  36. Mas é isso, uma iniciativa: uma coisa é capacitar, auxiliar inicialmente para que depois se caminhe com as próprias pernas. Outra é sustentar, viciando no investimento sem cobranças, objetivos e responsabilidades. Sem rodinhas, por favor, a certeza do futuro está em pedalar sozinho.
  37. Não há almoço grátis – alguém está pagando por ele. E se está pagando, tem de ter retorno, senão é insustentável.
  38. Enquanto isso, vou me inscrever em algum edital também.
  39. Distribuição. Grande problema.
  40. Envolve muita grana, muito risco. Coisa que ninguém sensato faria. Ricos e idealistas são poucos hoje em dia. Isso existe mais em mercados caóticos. Estamos em uma economia estável e muito bem calculada sobre custos/benefícios.
  41. O Brasil já teve uma economia caótica. Curioso como nessa época haviam tiragens tão altas, não?
  42. Eu sempre me pergunto como conseguiram abandonar (ou eliminar) tantos leitores entre as décadas de sessenta e oitenta. Não consigo nem imaginar um boa resposta sobre isto, por mais que me esforce.
  43. O negócio é internet, distribuição alternativa, segmentada, associada a pequenos distribuidores de produtos variados e semelhantes (ou nem sempre). Juntar-se a outros e trocar figurinhas. Sofrido. Demorado.
  44. O trabalho autoral independente imprime em gráfica as suas revistas – de quinhentos a mil exemplares. Estas cópias podem demorar anos para escoarem, atualmente. Muito trabalho, muito tempo. Tem que estar a fim. Não acho o melhor caminho, mas pode dar certo, tendo saco, tempo e grana. Com sorte, muita sorte, você empata ou tem pouco prejuízo.
  45. Animador?
  46. Super-heróis (brasileiros). Tema delicado. Não tenho nada contra. Sério.
  47. Não há dúvida que para, efetivamente viver de quadrinhos – por mais que poucos meses ou anos, você tem que criar seu universo, seus personagens (heróis, mangá, infantil, etc). Mas sempre algumas coisas me vêm à mente quanto a isto… e elas se aplicam a qualquer temática, estilo etc – vou usar ‘heróis’ porque sempre leio muito sobre isso.
  48. Muitos choram que as editoras não tem interesse nesse tipo de coisa. Será? Ok – você faz gibi de heróis… mas desenha como o Marc Silvestri? Olha o ego…
  49. Ah, desenha igual? Tudo bem, eles não querem o Marc Silvestri, porque eles já tem o Marc Silvestri. E sai muito mais barato que você. E é provável que ele seja mais conhecido também…
  50. Sinceridade: por que alguém se interessaria num personagem (brasileiro ou não) com os poderes do Super-Homem, com a roupa do Spawn com as histórias do X-Men? Bom, você talvez até goste deste tipo de coisa, sem problema – é um mundo livre. Uma coisa é usar o deus grego Morpheus outra é usar o personagem/histórias criadas por Gaiman no Sandman.
  51. Já eu, preferiria os originais.
  52. Aí vem a questão. Você é original? Eu não sou.
  53. É muito difícil ser original. Precisa de muito trabalho, muito tempo e nenhuma choradeira. É mais fácil usar a estepe de outros (personagens, histórias etc) e chorar. Ou fingir que é original. Os estrangeiros mesmo vivem se ‘inspirando’ entre eles – não é uma característica regional, não se preocupe. Lá fora, quando a cópia dá certo, usualmente é porque seus autores já são famosos e possuem seu séquito que os sustentem.
  54. No fim eu não choro (mais). Estou nessa de HQB há menos de um ano, mas aprendi bastante. Parei de chorar.
  55. Quadrinhos, no Brasil, é passatempo.
  56. Como croché, artesanato, quebra-cabeça de 10 mil peças… a maioria dos caras que fazem quadrinhos no Brasil trabalha com outra coisa e quando dá, faz um quadrinho ou outro.
  57. Por que eu não fui fazer croché?
  58. Vendo a bagaça como passatempo, você não cria ilusões – ser amado, premiado, remunerado blábláblá. Não criando ilusões, você não se desilude.
  59. Tem muita gente que faz desta forma (um passatempo). Como um bom passatempo, você faz e joga prá dentro da gaveta.
  60. Não há como ter idéia do tamanho, quantidade ou qualidades de HQs feitas assim – elas não saem da gaveta, lembra?
  61. Todavia há gente que possui tamanha paixão (leia-se ego) que gosta de mostrar o que faz. Mostra para encontrar seus iguais, para ser elogiado, para ter maior conhecimento da existência do seu trabalho. Normal. Busque sites/blogs de artesanato na internet.
  62. Este site é um exemplo disso.
  63. Há aqueles que não somente satisfeitos em ter um site, propagam pelos mais diversos meios digitais sua existência (olha eu de novo). Querem que suas histórias sejam mais conhecidas. É a velha máxima: qual o sentido de contar histórias senão para alguém ouvir? E também querem mais elogios, óbvio. Faz parte da brincadeira. Já que, dinheiro que é bom…
  64. O problema é que de toda ação, vem uma reação (sic). E esta reação pode ser… nada. Nenhum acesso, nada de links, nadica de nada.
  65. O que significa isso? Que você está a frente do seu tempo? Pode ser. Que você é um incompreendido? Com toda a certeza do mundo. Mas – se o seu interesse é ser compreendido, lido, sai de baixo da cama, pare de chorar e faça algo que gere interesse, acessos e links. Ou não. Ah: ter leitores das porcarias que você escreve sobre o trabalho alheio e não leitores da porcaria do trabalho que você escreve/desenha, acredite – não é um bom negócio…
  66. Mas cada um vive na realidade que lhe convém ser mais feliz.
  67. A propósito: pare de ler isso aqui e vá ler as HQs que eu fiz!
  68. Por favor?
  69. Pelamorde…?
  70. Outra reação possível é a opinião alheia. Ela é sempre bem-vinda quando positiva e um um desastre quando negativa? Muito pelo contrário.
  71. Melhor um carrasco que te decapita a um ‘amigo’ que faz você queimar lentamente na fogueira. Dói mais, ao meu ver. É muita presunção achar que todos irão amar o que você faz. E pior ainda é destratar aquele que – educadamente, diz que não gostou do seu trabalho.
  72. Claro que há de se separar o joio do trigo. A opinião pode ser ofensiva e desnecessária e isso não é opinião: é xingamento. Chamar o cara de idiota, imbecil (para não cair nos termos de baixo calão), torna a crítica muito pessoal e completamente irrelevante.
  73. Já vi boas resenhas (nem sempre tão positivas) de trabalhos que se estragaram por chamarem o autor de panaca… ou algo pior. É comum confundir o trabalho e o autor. É comum ter mais gente disposta a escrever mal de alguém ou algo do que encontrar um disposto a apoiar. Apoio dá mais trabalho, é comprometedor e pode ser vexatório. Destruir é rápido e indolor.
  74. Gostar ou não gostar sem dizer porquê complica tudo e tem de ser mágico para entender uma opinião, tirar o melhor proveito dela. Boa ou ruim. Mas ouça/leia de qualquer forma. Sempre.
  75. Se forem opiniões negativas, não fique arrasado, não desista, não desanime. Se quiseres começar a ter retornos mais positivos, muito pelo contrário: faça melhor. Faça mais. Traga uma resposta no seu trabalho. Não em respostas à opinião. Mas isso depende de você e do que você quer. Você pode inclusive se cercar de amigos que só te querem bem e nunca o criticam de fato. Qual o problema nisso?
  76. O caminho que for, dane-se o mundo. Siga o caminho que te faz feliz.
  77. Tem gente mais doente ainda que busca a crítica especializada. Manda seus trabalhos a jornalistas, revistas e sites.
  78. Tipo eu.
  79. Antes de mais nada – não são os desenhistas ou escritores uns babacas convencidos. Uns exibidos insuportáveis. Como escrevi dia destes no Orkut, quando estamos entre nossos pares, tentamos sempre parecer mais que somos – nos mais diversos aspectos pelos mais estranhos motivos. Cerceando pelo tema (área de atuação), é só olhar qualquer encontro de professores, engenheiros, advogados, administradores, médicos, publicitários etc. Percebe-se um certo ódio e arrogância entre colegas de profissão. O ego não cabe apenas aos quadrinistas (eu prefiro quadrinhistas – de quadriNHos), ele é natural, uma característica da condição humana.
  80. Voltando. Essa crítica pode vir (o cara publicar no site, revista, jornal etc) ou não. Se não vier, quer dizer que você não se encaixa no perfil da publicação (o Omelete não é o inimigo – eles publicam o que querem, pô!) ou o seu trabalho… bom, você sempre pode recorrer à lógica da raposa, onde as uvas estão verdes. Aliás – só o fato de se dar ao trabalho ao apresentar alguma análise de um trabalho suspeito como o meu, como aconteceu em Muertos, é prova que há o interesse dela (a crítica) em alavancar nossos próprios criadores. Nenhum crítico é obrigado a ceder espaço com material brasileiro. Não se esqueça disso nem dos que o fazem.
  81. Acho muito complicado criticar. Tanto que parei com meus achismos sobre outros trabalhos. A crítica especializada, o jornalista, tem o dever de equilibrar valores, julgá-los e apresentar de forma inteligível, justificada e interessante.
  82. Duvido que alguém tenha lido até aqui, mas este texto é um exemplo claro disto: eu não sei fazer isso.
  83. Na verdade acredito que muito poucos sabem – mesmo entre os ditos críticos.
  84. E é complicadíssimo, ao crítico, falar de HQB. Ele não lê isso, normalmente. E quando leêm é mais complicado ainda – (os bons críticos) provavelmente sabem decor e salteado tudo que escrevi aqui. E aí tudo se torna relativo.
  85. Daí surge a crítica ‘chapa branca’. O que é um baita pepino – pode atrapalhar mais que ajudar por simplesmente tendenciar o leitor ao erro e a decepção. Decepção esta que ele vai, para sempre, associar ao quadrinho nacional.
  86. Uma coisa é divulgar. Outra é falar bem por falar – apenas por ser HQ brasileira. Há também as iniciativas opostas – que pensam ser válidas por humilharem as outras. Ao meu ver, aquele que se considera crítico/resenhista ‘profissional’ não pode produzir quadrinhos. Ao também fazer HQ, toda sua visão fica comprometida e é comum que suas críticas sejam aplicadas… a eles mesmos! O crítico que escreve sobre você hoje é aquele que te convidou pruma parceria ontem (e você não pôde aceitar seja qual motivo for): bom, eu não queria estar na tua pele.
  87. Criticar não é puxar o saco. Também não é falar mal. É interpretação. E muito poucos conseguem interpretar coisa alguma. Eu já vi de tudo: inclusive crítica escrita por gente que não leu o trabalho analisado.
  88. Sério.
  89. Sim. Há muita picaretagem no meio. Amigos dos amigos. Ego. Eu sei: é impossível fugir do ego (ele serve entre tantas outras coisas, como ferramenta para ter a consciência de que… bom, se existe). Ele é humano e em boa parte, responsável por avanços, evoluções, insurreições ou revoluções. O que é bom.
  90. Mas há o ego prejudical, malicioso. Aquele pelo qual se usa os outros apenas para se dar bem, pelo qual se fala mal do alheio, para colocar alguém para baixo e fechar portas que nada interessariam ao detrator.
  91. Isso é normal em um mercado – competição e tals. Mas… não existe mercado! Ninguém ganha grana e todos perdem com este tipo de atitude! Falar mal do cara ao lado, que faz quadrinhos nacionais – existindo tão poucos leitores, é falar mal sobre as HQs nacionais! Então acho engraçado. Hilário.
  92. Ajudem-se. Amem-se. Daniel para presidente (ou autor de livros de auto-ajuda)!
  93. Eu tenho predileção por HQB – não fosse não escreveria tanto sobre, nem compraria tanto material nacional. Tenho admiração e respeito por tamanha paixão e heroísmo numa luta inglória e sem medalhas. Fico impressionado quando alguém – sem ganhar um tostão ainda por cima, surpreende com um trabalho de qualidade ímpar. E curto fazer também minhas historinhas, é óbvio. Ali, quando dá. Na manha.
  94. Mas precisamos nos unir de alguma forma, sem iniciativas demagogas, falácias ou meias verdades.
  95. Não precisamos de salvadores. Precisamos de uma visão maior, sobre o todo, que deve ser construída em conjunto. E bons trabalhos que falem por si.
  96. Jamais escreva algo sobre o que expus – ou da forma que fiz. Você acaba por ganhar muitos desafetos.
  97. Mas… e aí? Por que nunca deu certo? Não nos falta sermos mais honestos e abrirmos nossas portas? Para não repetirmos mais os mesmos erros? Não nos falta auto-crítica? O que é outro ponto interessante: não podemos nos criticar? Ter opiniões? Mesmo que diferentes? Você pode ter uma visão diferente da minha e, respeitando-me, não vai se tornar meu inimigo, acredite.
  98. Eu na verdade vou ficar de olho em você, bem de perto. E prezá-lo como alguém (no mínimo, ao menos) que tenta, que pensa. Claro – isso se você tiver algo a dizer, além de xingar os outros. Ou de tramar retaliações por baixo dos panos, entre seus pares.
  99. Nenhum destes pontos acima são indiscutíveis, confirmáveis ou criveis. São meus achismos, até agora. Posso mudar de opinião amanhã. Faço isso o tempo todo. Tenho a ilusão que corro à busca de amadurecimento. Ego, com certeza.
  100. Duvido que alguém leia isto. Muito grande. Nem eu leria. Quem está interessado? Nem eu estou!

Ok, esta última é mentira. Mais uma, entre 100.

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Oubapo

Um tempo atrás o sr. Grampá escreveu sobre a Oubapo. Rafael Grampá possui grande cobertura da mídia (merecidamente, é um desenhista ímpar) e o que ele fala/escreve queima pelos rastilhos digitais de nossas vidas. A saber, a Oubapo (em resumida e infeliz conceituação) é uma proposta de experimentação utilizando quadrinhos como suporte. Ou uma brincadeira mesmo – com sua linguagem.

Cerca de um ano atrás fui convidado a participar da ‘regional Oubapo’ aqui da américa latina . Recusei.

A responsabilidade de fazer uma página de exercício mensal pareceu demais pro meu (parco) tempo livre. Considerando a quantidade de páginas que fiz desde o convite, estava certo em não aceitar: eu ia furar.

Este site está completando um ano de atualização razoavelmente constante. Desde então passei por várias fases: da suspeita à constatação. Da euforia à frustração. Busco atualmente uma certa resignação. Praticamente uma doença. Há um ano atrás eu sabia que o mercado brasileiro era brabo e inexistia – só não sabia quão brabo era… e o quanto inexistia.

Há um ano atrás acreditava que os maiores artistas do país, publicados por editoras eram de alguma forma remunerados e possuiam vendas minimamente expressivas. Hoje sei que não. Antes era um objetivo a ser alcançado: aprimorar-se para ser um dos melhores, publicar e ganhar algum. Hoje sei que isso inexiste. Os melhores não ganham nada. Os melhores não vendem nada. Então não há objetivo, não há pelo que correr – nada para se ir atrás. Não há como se viver disso, minimamente. Arte? Prazer pelo fazer o que se gosta? Isso é conversê de quem já tem o seu garantido, de jovens, solitários ou hippies. Não sou entre nehum destes.

Acho lamentável que os quadrinhos nacionais tenham se tornado isso: um passatempo. Ou mesmo um “desejo de expressão”. HQs deveriam ser livres. Acessíveis. Em quaisquer nichos, estilos ou finalidades. Acessíveis para quem as lê e para quem deseja fazê-las. Mas… não é assim. Histórias em quadrinhos, ao menos por aqui, tornaram-se um objeto de luxo. Para pessoas cool, para quem tem tempo livre ou grana (dá no mesmo). Não é o meu caso. Estou levando este site o quanto posso, mas perdendo qualquer objetivo, meu tempo livre começa a clamar por algo que me dê algum retorno. Coisas que os quadrinhos jamais darão, a não ser alguma satisfação pessoal que me é muito cara – em ambíguos sentidos. Não sei dizer ao certo se um dia abandonarei por completo o (não) ofício dos quadrinhos amadores, mas com certeza tenho de reduzir drasticamente meu tempo dedicado a ele. Desintoxicar. Acabar com este vício.

Um conselho (e como todo bom conselho, inútil): se você for jovem, com tempo livre ou mesmo alguém em boa condição financeira, faça quadrinhos. Muitos. Tantos quanto você puder. Corra atrás do sonho. Até quase morrer, se for preciso. Porque se você tem chance agora, talvez consiga trabalhar com isso algum dia. E a melhor coisa do mundo é fazer HQ.

Porque se você for adulto e tiver de se sustentar, você terá menos tempo para brincar.

Fico terrivelmente frustrado, magoado e infeliz com isto. Assim como as histórias em quadrinhos no Brasil, a Oubapo é para quem pode.

Não para quem quer.